imagens e palavras

REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

MOONLIGHT: COMO SER NEGRO E GAY

Filme mais reconhecido pelo Oscar 2017, com oito indicações, Moonlight: Sob a Luz do Luar se encontra no meio do caminho entre esses dois pólos, o cinema eminentemente narrativo que a Academia prestigia e o estilo mais contemplativo que costuma emplacar em festivais. Há uma tentativa de passar da narrativa para a estética pura, como anunciou Godard “ a morte da linguagem.” Este é o principal ponto nervoso do longa do roteirista e diretor Barry Jenkins.


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O filme traz a mescla de narrativa e beleza estética através da contemplação dos corpos e da natureza. Little é o protagonista que passa por três fases de sua vida num bairro de periferia de Miami. Filho de uma prostituta drogada, ele se torna amigo de Juan, um cubano, chefe do tráfico local que passa a ocupar a figura paterna. Mahershala Ali interpreta este traficante, Juan, de forma inigualável. Ele dá a Little as primeiras direções da vida: trabalho, prazer em ser você e discernimento social. É difícil ser negro, mas o mundo é habitado por negros em sua maioria dividida em diferentes lugares do planeta e que foram os primeiros habitantes da terra.

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Moonlight deixa claro que, Juan está no auge, ainda que no segundo movimento, ele já está morto. Então a vida de Chiron segue nos mostrando que há um caminho para ser negro sem necessariamente ser um homem agressivo.Temos, Chiron, que significa em grego “ o ferido que vem a ser um curador” já adolescente alto, bonito e solitário.

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O filme transcende a palavra em prol da imagem e de nossa projeção nos problemas sociais que o protagonista tem que enfrentar até que nesse momento ele mostra sua opção sexual e tem um único encontro homossexual com um colega na praia. Depois se torna mesmo traficante e leva porrada na escola por ser gay. Little passa a ser chamado de Black. Ser negro, pobre e homossexual levanta uma bandeira contra o preconceito e sem dúvida, nos faz refletir.

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Desde o início o diretor nos prende à imagem, deixando as palavras mais escassas e complementares. No terceiro movimento, vê-se Black, já homem feito, muito forte pela academia, com músculos definidos, como se precisasse desse corpo esculpido para suprir suas dores morais e psíquicas. Interessante que é interpretado pelo mesmo ator que antes era seu pai simbólico. Todos os momentos mais críticos e emocionantes são amenizados pela fotografia bela que não se aprofunda tanto na dor como poderia fazer. A mãe vai viver num asilo e eles se reconciliam. Ao rever Kevin, seu amigo gay, Black está completamente desencantado, sofrido, mas com um físico perfeito. Sentimos próximo, o fim. Num restaurante do amigo, eles se entendem e completam a textura tênue deste filme que não pretende mais mexer na ferida da negritude nem na causa gay. O diretor nos faz contemplar uma América que segundo seu olhar está caminhando para mais liberdade em relação às cruéis questões sociais, com direito a um final feliz, dentro de um abraço que cura a criança assustada na beira do mar e da loucura onde cresceu.

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