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REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

O CIDADÃO ILUSTRE: O IMPACTO DA LITERATURA

O Cidadão Ilustre (2016) é um filme argentino dirigido por Mariano Chon e Gaston Duprat que mostra até que ponto a literatura é de fato a interpretação sígnica da realidade em todos os seus aspectos.


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O Cidadão Ilustre dirigido por Mariano Cohn e Gaston Duprat ( 2016) se debruça sobre a arte de escrever e a sua excelência no que tange a criação e o criador dentro de suas interpretações do mundo e sua dedicação exclusiva à literatura. É difícil, atualmente, filmes desse teor, com o foco na literatura em lato sensu. Daniel Mantovani, interpretado por Oscar Martinez, escritor protagonista, havia deixado Salas, pequena cidade provinciana da Argentina para viver na Europa por três décadas. Ao receber o prêmio Nobel de Literatura na Suécia, o escritor afirma a irrelevância do prêmio e justifica seu comportamento ao afirmar que ali eles o enterram, ou seja, ao receber prêmios, ele se torna uma estátua morta. Com a fama, Daniel também se nega a comparecer a palestras, coletivas e vários convites de diferentes partes do mundo. Está assim cancelando o maior prêmio concedido a um escritor.. Esta negação faz parte de sua arrogância, ao mesmo tempo em que questiona a relevância de ser escritor.

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Daniel tem dificuldade de criar vínculos afetivos e cria uma vida confortável em Barcelona. Ele vive e se alimenta de seus personagens. Sua vaidade e egocentrismo o sustentam. Todas as manifestações inconscientes que constelam sua sombra, arquétipo junguiano, estão expostas como feridas vivas em suas obras: a raiva, a inveja, a traição, o desamor, a maldade em todas suas nuances, disfarçada em hipocrisia e arrogância. Estes conteúdos, Daniel exorciza ao escrever e inclusive se torna um dos personagens em sua última obra premiada. Toda sua sombra projetada vem a construir um universo literário pronto para questionar agressivamente, a mediocridade humana. Neste contexto decide voltar a Salas, a cidade onde nasceu e cresceu para lá sim, receber o prêmio de Cidadão Ilustre. Contudo tudo está diferente e Daniel, a princípio recebido como uma pessoa muito importante e famosa, vai aos poucos fazendo brotar a ira e a inveja dos cidadãos por tê-los exposto, há uma reação em cadeia de toda uma cidade parada no tempo, mas com selfies e uma comunidade violenta e envolta em seus enredos pessoais. Há uma mescla de imaginação e realidade, uma vez que o protagonista diz: “ Não há realidade. se tudo é uma interpretação” Muito pertinente este questionamento de até onde as coisas são reais ou se tornam um ficção. Daniel já não pertence a Salas o que lhe causa mais rejeição e distanciamento daquela gente rudimentar que lida com porcos e outros animais, que não se desenvolveu intelectualmente, vivendo suas vidinhas corriqueiras sem nenhuma ambição maior do que a fofoca e a hipocrisia de suas personas, como um arquétipo universal de cidades pequenas.

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Salas é brega. Salas é pequena demais para um convidado tão ilustre que odeia aquele lugar. O olhar dos cineastas mostram os costumes, como a recepção em carro de bombeiro e a Miss Beleza de Salas, as ordens do prefeito para que os comerciantes ricos tenham seu espaço protegido com suas mentiras e falcatruas. Contudo, as relações são expostas e com elas o sentimento que ele nutre com cada uma: a ex namorada e seu marido, o prefeito, o comerciante, a primeira professora, os colegas e muitos desafetos estão presentes em seus livros. ocidadão ilustre  3jpg.jpg Daniel só não pensou que a cidade tinha lido e se identificado com o que estava ali descrito, criando uma barreira de ódio, inveja e violência que permeia todo o filme. Mas ele não se identifica com a cidade. Aquele ambiente já não mais o representa. Para virar esta página, ele tem que desconstruir o seu próprio mito, isto é, sua pessoa que se converteu em um salvador rico que para uns é um consolo, como o caso da cadeira de rodas caríssima que ele acaba ofertando ao menino tetraplégico. Mas para outros este mito é europeu, deve ser rechaçado com violência porque atinge as mentes mais medíocres e invejosas do lugarejo.

o cidadão ilustre 4).jpg Todo o filme é cortado por capítulos, como um livro e nas cenas finais quando o jogo vira e Daniel é perseguido há uma mistura de ficção e realidade. Quando à noite em sua imaginação, vê o ódio de muitos personagens ao longo da estrada, como a querer matá-lo, o convite à caça feito pelo amigo de infância é um convite à morte simbólica dele mesmo, personagem principal do livro premiado. Ali, morre simbolicamente o mito do escritor com um tiro no escuro da noite de Salas. Aí a literatura mostra seu vigor estilístico como que nos alertando que tudo pode ser literatura, pois o signo literário é ambíguo e nasce do inconsciente e de como esse descreve a vida e suas emoções mais simples e arquetipicamente universais.

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