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REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

O SILÊNCIO DO CÉU: UM CASAL SILENCIADO PELA DOR

O filme dirigido por Marcos Dutra (2016)começa com uma cena de estupro. Dois homens se revezam na agressão sexual a Diana (Carolina Dieckmann). Mario (Leonardo Sbaraglia), chega em casa e flagra o ato pela janela. O início constitui um trauma de grande impacto que mostra dois pontos de vista que serão desenvolvidos ao longo da trama.


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O filme dirigido por Marcos Dutra (2016)começa com uma cena de estupro. Dois homens se revezam na agressão sexual a Diana (Carolina Dieckmann). Eles ameaçam a vítima com uma arma, tapam a sua boca. O marido dela, Mario (Leonardo Sbaraglia), chega em casa e flagra o ato pela janela. O início constitui um trauma de grande impacto que mostra dois pontos de vista que serão desenvolvidos ao longo da trama. Adaptado do livro "Era El Cielo", de Sergio Bizzio, O Silêncio do Céu adquire tons surpreendentes e sombrios.

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A narrativa é contada sob o ponto de vista de Mario que na relação é um homem com fobias que percebe sua inferioridade e tenta camuflá-la criando um personagem inventado para mostrar sua inteligência e capacidade. Porém, após uma separação de dois anos, ao voltar à casa vê o estupro e nada consegue fazer. É por esta violência que Mario decide enfrentar seus medos e buscar vingança. É um thriller perfeito à medida que o espectador segue com ansiedade as descobertas do protagonista ao desvendar o primeiro estuprador com uma pista: o cactus com o qual machuca a mão é um presente que Diana ganhou de alguém em sua ausência. Ele vai juntando o quebra cabeça, ainda que não tenha absolutamente nenhuma revelação de Diana.

o silencio do céu  2 .jpg Diana havia namorado um dos estupradores e se sente culpada por sua atitude e também.amedrontada. Diana não conta ao marido por medo e vergonha de si mesma. A narrativa toma uma forma de suspense que nos tira o fôlego pois é determinada pelo silêncio do casal. Este silêncio é um espaço para o interdito em termos psicanalíticos. Cada um tem sua dor, mas ambos re-presentam um personagem falso para que nada seja re-velado. Ela carrega seus pesadelos e ele finge que não percebe, deixando espaço para uma resolução. Quando Mario vai descobrindo as pistas dos estupradores, tem-se a sensação exata de que está concomitantemente se livrando de sues medos mais arcaicos, como medo de avião, medo das ruas, medo de gente. Mario é o personagem que se transforma. Apesar de Diana mostrar sua dor pelo olhar, o filme não foca nas suas reações traumáticas. Elas ficam silenciadas. Elas são marcas que a heroína há de vencer, mas em segundo plano. Com a mudança de Mario, tudo vem à tona e o silêncio do céu nos é revelado no final, quando ele liquida os fantasmas e os homens que estupraram sua mulher, com toda a força da vingança, muito sangue entrevisto por Diana. Contudo, a chave do filme é o calar-se. Até o fim, quando Mario extermina os criminosos, nada é dito. O casal mantém sua farsa e é quase insuportável o peso do silêncio de ambos. Num close final, ouve-se de Mario que seu medo é do silêncio do céu e para isto não há cura. Ele tem medo do infinito, da vida, da existência que fica estreita como antes. Quando nada é dito, quando tudo é angustiadamente represado, o casal seguirá suas vidas em silêncio. o-silencio-do-ceu 2 .png


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