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REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

MORANGO E CHOCOLATE: PRECONCEITO E LIBERDADE

Fresa y chocolate (Morango e chocolate, em português) é um filme de co-produção cubano-mexicano-espanhola, dirigido em 1994 por Tomás Gutiérrez Alea e Juan Carlos Tabío, a partir do conto El Lobo, el bosque y el hombre escrito por Senel Paz em 1990 que revela o preconceito aos gays e a rigidez fidelista em relação ao homossexualismo.


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David, um estudante cubano, politicamente envolvido com o regime fidelista, entra em depressão quando sua namorada o deixa. Ao conhecer Diego, um intelectual homossexual , sua vida muda a partir do momento que se fascina com diferentes ideias e críticas ao governo em relação ao homossexualismo O filme toca direto no preconceito, junto com a rejeição e suspeita, que são defesas do ego educado a odiar ou negar o diferente dentro dosistema comunista de então. A amizade que surge com toda a força é exatamente a superação de intolerância e discriminação à homossexualidade. Exatamente pelos conflitos de personalidade e de direitos, eles acabam descobrindo a possibilidade de vencer a carga que trazem de maneira diversa. Aí está sendo construída a verdadeira amizade, quando a polaridade é derrubada pela força da amizade, livre de interesses e preconceitos. É um filme o que aborda questões universalmente conhecidas e que estão sempre em discussão. Apesar do filme passar na Cuba dos anos 1970, a história abordada é atual e universal. Os direitos individuais, o direito da diversidade sexual e a questão política, continuam sendo temas de grande importância. Mas a principal razão de Morango e Chocolate ser quase cômico, é a ingenuidade de David e sua fobia ao estar com Diego. Do diálogo em que travam uma guerra, brota o sabor do morango e a doçura do chocolate.

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Diego é totalmente convencido de sua persona. É um homem solitário que recebe regalias como bebidas, livros e cigarros camuflados e transgressores. Mora em um apartamento em Havana Vieja e percebe-se sua integridade intelectual e sua sensibilidade. Diego quer viver livre, sem seguir nenhum dogma. O filme é atemporal pois esta polêmica não terminou em Cuba atual, apenas atenuado pelas novas gerações pós a morte de Fidel a e abertura econômica.

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Naqueles anos, tudo era mais rígido e reprimido, como a própria sexualidade. David tem dificuldades de transar com a namorada por valores antigos nas relações heterossexuais, proibindo o sexo antes do casamento. Assim, o encontro com Diego foi o encontro com o outro proibido pela censura, um outro, contudo que atiçava sua inteligência. Os livros, as conversas foram aproximam do estas duas criaturas opostas.

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Fresa y Chocolate’ tem a magia do cinema pelas cores, a vida em Havana Vieja, com seu povo amistoso e simples. O filme fala das diferenças e até hoje não se pode vencer este tema em nenhum país. Estamos até piores e decadentes, dentro de um retrocesso mundial que beira o reacionário. Deste filme tiramos reflexões sobre a sociedade cubana e as mudanças que houveram e dizem respeito à liberdade individual, a escolha sexual e religiosa. É um canto de amizade e de como esta pode crescer espiritual e culturalmente dentro de uma pessoa cheia de preconceitos e dogmas, possibilitando-lhe ter uma visão mais ampla e suave. O diretor, Juan Carlos Távio mostra as posições repressivas do governo cubano contra os homossexuais e de como revelar o que todos temiam e só foram adquirindo voz através de décadas.

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Diego exerce uma grande influência sobre David, mas decide deixar Cuba, não por ser homossexual, mas por sua atitude contestadora que o coloca em uma situação política insustentável. Temos um final realista, muito difícil para quem tem que sair do seu país para não viver escondido.

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