imagens e palavras

REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

REVOLUÇÃO DIGITAL

Novos e poderosos computadores de mesa; novos softwares adaptáveis e autoevolutivos; novos dispositivos móveis de comunicação que estendem as conexões on-line para qualquer espaço a qualquer hora; novos trabalhadores e gerentes conectados entre si em torno de tarefas e desempenho, capazes de falar a mesma língua, a língua digital. ( Castels, 1995:214)


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A Internet entrou nas relações promovendo uma série de mudanças. Instrumento importante do processo de globalização analisando anteriormente, a world wide web redefiniu os horizontes da cultura. No caso do jornalismo, primeiramente, a apuração passou por um novo teste, pois aparentemente se tornou mais fácil, embora muitas críticas sejam feitas por um novo modelo de investigar o fato. Em seguida, a necessidade de rapidez crescente para fechar uma edição e as novas facilidades operacionais, bem como a velocidade do jornalismo on-line, começaram a trazer desafios oriundos do desenvolvimento de ferramentas tecnológicas como:

A língua digital, que já pode ser pensada em termos de uma linguagem, como fazem os pensadores da virtualidade como Pierre Lévy e Nicholas Negroponte, comanda as informações em tempo real e muito do que se produz para outras mídias. A Internet pode ser resumida nas palavras de Castells:

A rede Internet é a espinha dorsal da comunicação global mediada por computadores (CMC) dos anos 90, uma vez que liga gradativamente a maior parte das redes. Em meados da década de 90, a Internet conectava 44 mil redes de computadores e cerca de 3,2 milhões de computadores principais em todo o mundo, com mais ou menos 25 milhões de usuários, e estava se expandindo de forma acelerada. ( Castels, 1995: 369)

Com esses números, pode-se pensar que o jornalismo online deve ser tido como ferramenta importante para o que é consumido na Internet. Castells também explica a construção da rede mundial de computadores, bem como a dificuldade de se pensar o controle a partir da rede, fatores que se relacionam com a produção da notícia, com o recorte fragmentado dos fatos no jornalismo online.

Da origem militar e científica, a Internet passa a instrumento de informação, comércio e domínio público; surge uma nova forma de olhar para o fenômeno. Castells classifica essa passagem como “contracultura computacional”, baseada na idéia da democracia digital e da formação das comunidades virtuais. Essa curiosa combinação entre militarismo e contracultura tem, segundo Castells, o mesmo fundamento: o mundo universitário. É nesse ambiente que surgem as grandes inovações que irão marcar a revolução digital. A análise desse processo de criação de rede é fundamental para entender como se distribuiu e como foi moldada a estrutura de um novo veículo de comunicação. Veículo que surgiu colocando em xeque as mídias impressas e radiofônicas, além de obrigar a televisão a abandonar sua cômoda posição de imperatriz da comunicação massiva para começar a pensar em mudanças. Precisamos agora contextualizar a questão, analisando de que modo a Internet vem se constituindo no âmbito do mundo globalizado. A análise de Castells é mais uma vez adequada. Escrito em 1995, A Sociedade em Rede, dificilmente poderia prever um fato como o congestionamento da Internet tal qual o ocorrido após a queda das torres gêmeas do World Trade Center, mas colocava já questões significativas sobre como a rede está arquitetada e, sobretudo como o público do ambiente virtual se comporta. É importante compreender como antes do atentado terrorista, a preocupação com o público que acessava a Internet, sob o ponto de vista tecnológico, era grande e como questões importantes vêm da preocupação da sociedade da informação.

Diante dessa observação, o episódio de 11 de setembro é de caráter paradigmático para o tema da acessibilidade. O fato de a rede ter sido comprometida nesse dia leva a refletir sobre o jornalismo online. Se as pessoas em busca da informação online não conseguiam acesso e se a cobertura de outros veículos, como televisão, também mostravam em tempo real o que acontecia no local, o jornalismo on-line acabava por ser no horizonte das dificuldades técnicas. Permanecem, assim, duas questões contrapostas: a de um possível esvaziamento da rede como fonte de informação diante de limitações técnicas como essa e a da possibilidade, em futuro próximo, de encontrar soluções tecnológicas para os atuais limites da Internet. Mas para efeitos desse trabalho, uma outra pergunta é ainda significativa; o que produziam os veículos de tempo real quando o sistema estava fora do ar?

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No caso de um evento como 11 de setembro, não surpreende que o interesse por uma tal notícia seja mundial. Contudo, cabe também perguntar que rumos a Internet tem tomado (e poderá tomar) no que diz respeito a outra categoria de informações, aquelas que interessam somente a públicos altamente definidos e segmentados. Mais que isso, como esses públicos em busca de informações específicas estarão lidando com a rede? Como funcionará o processo de busca e seleção da informação? Como os públicos se movimentarão nesse mundo virtual e cheio de possibilidade da Internet? Castells toca em algumas dessas questões:

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Todas as outras mensagens são reproduzidas à imaginação individual ou às subculturas resultantes de contato pessoal, cada vez mais marginalizadas. Do ponto de vista da sociedade, a comunicação eletrônica (tipografia, audiovisual ou mediada por computadores) é comunicação. No entanto, não quer dizer que haja homogeneização das expressões culturais e domínio completo de códigos por alguns emissores centrais. É precisamente devido a sua diversificação, multimodalidades e versatilidade que o novo sistema de comunicação é capaz de abraçar e integrar todas as formas de expressão, bem como a diversidade de interesses, valores e imaginações, inclusive a expressão de conflitos sociais.( op.cit: 396)

No âmbito da nova cultura digital é importante frisar a existência de diversos modos de interação. Nas comunidades virtuais da rede, uma nova configuração tribal parece surgir. E essa tribo se informa na própria rede, não só através dos sites especializados em notícias online, mas na troca de informações por e-mails, chats e afins. No ambiente da Internet, muitas são as possibilidades de estar informado e de selecionar o tipo de informação desejada, assim como muitas são as possibilidades da desinformação. Para finalizar, é preciso lembrar que a expressão de “conflitos sociais” deveria ser recorte do jornalismo online, mas como o jornalismo continua afastado de uma preocupação social. Preocupadas como os ditames do mercado e com a necessidade de circular as notícias, agora em tempo real, ou cada vez mais encurtando a noção de tempo, que sempre foi peça fundamental ao fazer jornalístico, as empresas de comunicação preferem, como podemos observar historicamente, estabelecer um outro tipo de relação com a produção da notícia.


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