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REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

Alias, Grace:Assassina ou Vítima?

Alias, Grace filme dirigido por David Cronenberg é baseado no romance da Margaret Atwood e relata a história verídica de Grace Marks presa por duplo homicídio em 1843 em Toronto e sua trajetória durante 43 anos em uma prisão com passagem no manicômio até sua própria narração ao psiquiatra Dr. Jordan.


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Grace- Assassina ou vítima?

Este filme baseado no romance de Margaret Atwood e dirigido por David Cronenberg é um seriado de seis partes com a duração de quarenta minutos cada uma. Com um estilo clássico, Alias,Grace é esteticamente muito romântico, com nuances de claro e escuro na sala onde ela conta toda sua vida ao psiquiatra Jordan que está tentando diagnosticar a doença mental da jovem. De início, ela representa seus sentimentos e se observa em off seus verdadeiros sentimentos em relação às perguntas do psiquiatra. É um mecanismo de defesa que protege a pessoa de si mesma, mas que concomitantemente divide e afasta a pessoa do Self, criando uma esquizofrenia. Grace havia saído de uma prisão onde passou 30 anos e antes foi exposta a tratamentos brutos em um manicômio por assassinato. Esta é o material a ser elaborado pelo diretor que não deixa escapar nem um detalhe das expressões, pensamentos em off, deslizes, traumas e poucas alegrias desta mulher que viveu em Toronto, Canada como camareira. Depois de vir da Irlanda, com pai alcoólatra e a morte precoce de sua mãe, Grace larga os irmãos e nunca volta para casa. Já com apenas doze anos ela trabalha em uma mansão burguesa onde aprende tudo com outra empregada canadense Mary que se torna sua melhor amiga e tem uma grande influência sobre Grace.

grace 4 jpg.jpg A sua inocência vai aos poucos se maculando com os fatos da vida, as histórias que aprende com a amiga sobre a luta de classes, a desigualdade social, a necessidade de questionar-se porque há pobres oprimidos por poucos ricos que detêm o poder e as terras. Mary engravida do patrão, faz um aborto clandestino que a leva à morte por hemorragia. Esta perda é fatal para Grace, que tinha em sua amiga o complemento que precisava, com os pés na terra, o sonho de casar-se, a consciência política que aos poucos as mulheres estavam assumindo e teriam seus direitos básicos no início do século XX. Mas, em 1850 até 1872 o tempo em que Grace vive, é de silenciar as mulheres que conseguiam algum reconhecimento quando seduziam, eram supostamente frágeis, bonitas, suaves e reprimidas. Com este contexto, Grace foi se tornando consciente da sociedade como um todo, tendo como exemplo a casa em que trabalhava. Daí ela foi para o campo mais afastado numa casa fora dos moldes tradicionais, onde viviam o dono da terra e uma mulher supostamente governanta, mas que era amante do dono às escondidas.

grace anna.jpg Nada é assumido, tudo é calado. Grace tem a companhia de McDermott que faz a jardinagem e outros trabalhos de força. Ele é revoltado, agressivo e sente uma paixão por Grace. Aos poucos vai insistindo em que fujam depois de matarem o patrão e a governanta. Grace cria um ódio inevitável pela governanta que além de autoritária é desequilibrada emocionalmente. Grace a manipula e sente que o patrão faz pequenas cortes. Assim na cabeça dessa jovem, a vontade de vingar-se das humilhações, de um ideal feminino não delineado, só brota a raiva da burguesia e suas obrigações mesquinhas e cotidianas dentro de um clima pesado pela raiva e mentira de todos. Um velho amigo, Jeremiah passa pela casa e aconselha Grace a ir embora com ele, mas ela reluta, como se gostasse sadicamente daquela situação dramática e estapafúrdia que ela assistia sem nenhuma afetividade. Finalmente, ela e James McDermott elaboram os assassinatos, roubam objetos preciosos e fogem para cruzar a fronteira com os EUA. São pegos, julgados e McDermott é enforcado. Grace é punida pela prisão perpétua.

grace 2.jpg Ela se torna uma assassina famosa, e na sua psicoterapia com Dr Jordan chegamos à conclusão certa de que ela tinha muitas personas, o que a tornou ambígua nas falas inventadas e no humor contido, como a imagem perfeita da mulher costurando enquanto fala. Uma metáfora de que tudo que foi dito foi bem costurado com as linhas de seu pensamento arquitetado. Mesmo com a associação livre e os sonhos, Dr. Jordan não consegue descobrir o enigma até uma hipnose ajudar para o diagnóstico final de uma cisão, de uma mulher que tinha várias facetas e era esquizofrênica, embora a psiquiatria estivesse começando nesta época. Grace só foi perdoada em 1872.

grace-.jpg Grace representa a opressão da mulher no século XIX e revela a total falta de direitos femininos dentro de uma sociedade patriarcal e com grande desigualdade entre os muito ricos e o povo trabalhador. No final da vida, fica com um rapaz da adolescência que cuida de Grace até o fim pois ela não tinha condições de reconquistar sua totalidade, nem suas lembranças apagadas pela dor.


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