imagens e palavras

REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

o estranho que nós amamos: sexualidade e repressão

O filme de época O Estranho que nós amamos, baseado em um romance de Thomas P. Cullinan, de 20161966, que tinha virado filme em 1971, de mesmo nome, com Clint Eastwood é dirigido por Sofia Coppola que ganhou seu primeiro prêmio de direção em Cannes em 2016.


o-estranho-que-nos-amamos_feat.jpg

Durante a guerra civil sete mulheres moram numa escola sob a direção de Martha. O cabo John é encontrado ferido por uma das alunas e a diretora decide acolhê-lo mesmo sabendo que ele é um soldado yankee, logo inimigo dos sulistas. Assim que o hóspede está sendo tratado, é imediatamente cobiçado pelas mulheres que passam a vestir-se melhor, sorrir e competir com inveja e ódio, quem vai ser a escolhida. O erotismo não vem à tona porque a proibição de estar sozinha com um homem jovem e bonito é marcante e esmaga a sombra com seus conteúdos do mal. Assim, a narrativa vai transformando os personagens em loucos e desesperados à medida que é impossível conviver sem tensão quando o tesão explode. As três mulheres mais ousadas e loucas para transar com John, são a diretora, a professora de francês e uma aluna ousada. Ele começa a perceber, mas gosta da professora de Richmond e nesse ritmo, ela se apaixona e se torna uma namorada invejada pelas demais.

o estranho que nós amamos 5_.jpg

O lado matriarcal é tão reprimido pela diretora que as moças se comportam dentro das normas, aprendem francês, costuram, cozinham e lavam roupa. Dentro de cores sóbrias propositalmente escolhidas, a casa permanece na penumbra e à noite somente com a luz de velas.

o estranho que nós amamos 3.jpeg

O filme mostra a sombra, o lado escuro desses personagens que são capazes de tudo para possuir o cabo. Tudo é escondido e vai aos poucos se revelando ao espectador. O Estranho que Nós Amamos se aproxima mais dos terrores recentes americanos, que se marcam por guardar potenciais secretos que não necessariamente se consumam. A cena da amputação, por exemplo, o climax do terror, é recriada aqui de um jeito funcional, justificável e perverso. Coppola sempre foi a cineasta do implícito, da narrativa lacunar evocativa, e ao fazer um filme de terror mais atmosférico ela segura o terror e dá lugar também ao psicológico. As cenas não se completam e o longa nos deixa na expectativa do cabo ficar na casa como jardineiro, porque a diretora nunca o entrega aos sulistas. Ela mente e prorroga qualquer decisão que o leve dali.

Naturalmente, o cabo John se transforma em um homem perigoso e vingativo quando acorda sem uma perna e passa a xingar todas de vadias. No seu surto, diz verdades, num discurso em que as acusa de vampiras e diabólicas vestidas de uma falsa pureza, recatada e submissa. É essa a função do patriarcal entre tantas mulheres que o desejam.

o estranho que nós amamos  5.jpg

O centro da narrativa é o jogo subjetivo de ódio, inveja e erotismo que atinge níveis dramáticos enquanto é vivido pelo enigmático quadrado amoroso Nicole Kidman, Kirsten Dunst, Elle Fanning e Colin Farrell – este último, o soldado ferido.. Em meio a um ambiente ultraconservador, em que a castidade dos modos ditos religiosos e as regras patriarcais sob o comportamento feminino são impostas, a presença do soldado irá envolver a sexualidade das três mulheres protagonistas a tal ponto de atingir o ódio de um homem aleijado que ameaça matar, que diz quem domina é ele agora, já que está preso naquela casa maldita . Aí atingimos uma alucinada e macabra situação de psicodelia entre ele e as três mulheres que o cobiçam com desejo. Nesse clima de tensão a professora se entrega a ele de maneira desvairada e desesperada. Mas, é a voz da diretora Martha que domina o desenrolar dos últimos acontecimentos, e dentro de sua reza falsa, determina o envenenamento do homem numa última ceia, com a seguinte e derradeira cena em, que costuram o corpo e deixam do lado de fora da casa com a bandeira azul que é sinal da presença do inimigo.

o estranho que nós amamos  6jpg.jpg


version 3/s/cinema// @obvious, @obvioushp //Fernanda Villas Boas