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REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

MERLÍ: reflexão e filosofia renascem na série catalã

Uma série catalá encanta e seduz à filosofia através de Merlí, um professor que ousa ensinar do seu modo Filosofia a adolescentes que nem pensavam que existia esta ciência humana. Com a produção de Héctor Lozano a história se abre entre conflitos, soluções, diferenças e conquistas dentro de uma escola pública em Barcelona.


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Merlí foi criada e escrita por Héctor Lozano e sua história começa quando MerlíBergeron é despejado de sua casa ao mesmo tempo em que precisa levar seu filho para morar consigo, após a mãe do menino resolver mudar para a Itália. Os dois vão morar com Carmina, mãe de Merlí, sob a promessa de que o novo emprego do filho melhoraria a situação de ambos. Merlí se torna o professor de filosofia do colégio Àngel Guimerà e sua chegada causa imenso desconforto ao corpo docente, já que seus métodos de ensino são transgressores e muitas vezes, moralmente questionáveis.

Esta série catalã iniciada em 2016 tem três temporadas. Merlí é professor de Filosofia de uma turma do ensino médio no Instituo Angel em Barcelona. Merlí é o herói sedutor, irreverente e completamente livre em suas ideias pouco ortodoxas. Ele gradativamente se torna o tutor desta turma de adolescentes curiosos e desobedientes, amargos com pais tradicionais e infelizes com casas desgovernadas, com pai ausente e mãe problemática. Neste cenário, Merlí se entrega com paixão ao ensino de Filosofia passando pelas problemáticas da própria classe. Ele faz os alunos sentirem a importância da filosofia e de sua presença no cotidiano. Começando pelo gregos, com Platão, os pré-socráticos, os peripatéticos, Aristóteles, Sócrates, os céticos, passando para a idade Média, o Iluminismo com Beócio e Descartes até alcançar o Modernismo através de Foucault, Freud, Nietzche, Engels e outros.

Merlí se torna o herói da turma, por seu humor, sua especial qualidade de cuidar, amar e acolher estes alunos cheios de conflitos, dores, desavenças e solidão. Há personagens bem marcantes, com uma personalidade forte, como Pol, Marc, Tania e Joan. Seu filho, Bruno também é seu aluno e através da relação com a turma sente-se mais livre quando finalmente declara ser gay e se integra ao grupo. Toda a narrativa é marcada também com a convivência invejosa e competitiva dos professores adultos que se dividem entre os que admiram Merlí e aqueles que pretendem derrubá-lo. É fascinante sua habilidade de argumentar sem perder a calma, apenas com o uso da ironia e da empatia. Ele sabe que é um sujeito complicado, sem amigos, com uma mãe atriz, um filho gay e uma atração imensa pelas mulheres.

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Merlí faz com que nos apaixonemos pela sua ideia de liberdade, de busca constante por uma transformação nos alunos e principalmente na capacidade que eles têm de pensar, conhecer-se e se tornarem independentes. Para isso, muitas vezes, entra em conflito com alguns pais e por outro lado não desiste do seu ideal de curar os solitários, através do confronto e da conversa como o caso do rapaz que sofre de agorafobia, tendo se tornado refém do medo e de suas manias. Ficamos maravilhados com a paciência e a compaixão de Merlí que consegue conjugar respeito com suavidade e humor.

merli 3.jpg Uma série catalã digna de ser vista com prazer numa torcida grande pelo herói que precisamos em nossas escolas, pela valorização do(a) professor(a) nos dias atuais quando a família está desestruturada e a juventude não vê sentido em seus futuros, alienando-se do presente e das razões porque sofrem. Passam a pensar. Parece fácil, mas muitos estudantes não sabem mais viver sem a cara num celular, trocando a conversa e a leitura por fofocas e prazeres fugazes. Que Merlí vença toda a mediocridade existente em sistemas escolares medíocres e obtusos.


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