imagens e palavras

REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

O QUADRADO: ATÉ QUE PONTO A ARTE É ARTE

O Quadrado, filme dirigido pelo sueco, Ruben Ostland (2017) faz uma autocrítica às instalações e outras formas de arte contemporânea que pretendem criticar as desigualdades sociais, mas nem sempre são fiéis ao seu papel de criação subjetiva que liberta e elucida a consciência humana, por causa dos organizadores de exposições caras.


o quadrado 0.jpg

O Filme O QUADRADO dirigido por Ruben Ostlund (2017) escancara a polêmica sobre o sentido da arte contemporânea no mundo capitalista. O Quadrado é uma instalação a ser exposta no Museu Royal X sob a curadoria de Christian (Oleg Claus) que está investindo neste evento onde os milionários irão comparecer em peso assim que estiver pronta. Christian é um homem extremante individualista com duas filhas que suavizam sua persona pragmática e correta até o momento em que ele mesmo vai ser posto em cheque em relação ao seu discurso a favor da arte altruísta diante de tantos problemas sociais que atravessam a Europa. São esses problemas, como os imigrantes, os marginais, os excluídos, os mendigos que se chocam com a classe burguesa que frequenta os museus.

o quadrado 2.jpg Logo a trama faz o personagem em plena rua de manhã presenciar uma cena de violência que ele apazigua e fica feliz em intervir. Em seguida é assaltado ficando sem o celular e a carteira. Conta a história para a equipe e junto ao colega de equipe escreve cartas dizendo que a pessoa é um ladrão etc quando Michael se dispõe a rastrear onde está o aparelho celular. Pelo Google maps. Assim eles têm a ideia de deixar um bilhete em todos os apartamentos do edifício rastreado. E Christian se diverte com esta aventura. Através da figura geométrica, o Quadrado, objeto conceitual da exposição é símbolo da perfeição que o homem nunca vai alcançar. Junto ao objeto está a mensagem chamando para o altruísmo, um lugar sagrado onde todos devem ter direitos e deveres iguais. A narrativa é fragmentada, como um discurso do inconsciente de Christian que ora está às voltas com o museu, a equipe da publicidade, o caso sexual com a jornalista americana e outras completamente diversas, às vezes, divertidas, com uma boa dose de sarcasmo na veracidade da emoção em cada uma delas. Christian se disfarça porque contém suas emoções em nome de uma racionalidade pensante.

o-quadrado.jpg

Quando, a equipe faz um vídeo sobre o Quadrado, com um conteúdo oposto à mensagem da instalação, este viraliza no You Tube com a criança loura e pobre que explode dentro deste espaço sagrado, há entrevistas devido à polêmica sobre usar uma criança pobre que é excluída violentamente deste espaço. Christina nunca sabe justificar a que veio, como permitiu, a não ser através do discurso dos outros. O fato de o Quadrado questionar a função da arte contemporânea, ele também satiriza os burgueses sempre ricos com seus smokings, repetindo os mesmos rituais. É quando aprece o imprevisível homem besta para assustar, mexer, incomodar aquela ceia de nobres. O macaco homem é o clímax da embriaguês burguesa que financia todos os museus e suas exposições e a enxegam como um investimento, não como arte. O macaco bicho, selvagem, seria um símbolo da arte. Atacar, radicalmente o status quo. o quadrado 4.jpg

Assim, a narrativa é até seu final moralizador, quando Christian vai se desculpar com um menino que havia perturbado com sua carta no prédio anterior.Ele não o encontra. Nada se resolve, na arte, nada se fecha, está sempre aberta ao improvável. Nessa perspectiva sociológica, o diretor, passeia por moradores de rua, a correria das pessoas, os silêncios, o povo individualista e maquinal de Estocolmo, diz ele nas entrelinhas, não sabe bem o que é arte, mas sabe consumir nos shoppings da vida. Seria o quadrado, uma utopia da possível arte atual? Cadê a confiança? Cadê nossa humanidade?


version 1/s/cinema// //Fernanda Villas Boas