imagens e palavras

REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

RITA: A SOLIDÃO DE UMA PROFESSORA

Rita é uma série dinamarquesa dirigida por Christian Torpe para a Netflix que obteve grande sucesso no exterior e no Brasil.Em quatro temporadas, a série segue a trajetória de uma professora rebelde, querida pelos alunos, imatura emocionalmente, mas convincente, até por razões do roteiro ir perdendo tudo, ou quase tudo, que a mantinha forte em suas botas.


Rita Mille-Dinesen-tavle_704192a_zpsnltn4fch.jpg

Rita é uma série dinamarquesa produzida pela Netflix em quatro temporadas com grande sucesso nos EUA e vários países. Nossa análise pretende mostrar as características da personagem enquanto pessoa com uma personalidade forte, transgressora, independente e querida por seus alunos e invejada por alguns colegas de escola. Toda a história se passa entre a escola e a casa de Rita, com passagens pela cidade, hospitais, e casas de alunos problemáticos. Vemos uma escola pública da Dinamarca com adolescentes carentes tanto financeira como psicologicamente. A realidade é abordada de forma naturalista, ou seja, tudo o que acontece é linear, desde o momento em que as portas abrem, os corredores se movimentam, as aulas seguem seu curso. Há tanto o enfoque no comportamento dos alunos, desde os mais novos, até a sala dos professores onde há eventualmente discussões acerca da instituição e também questionamentos sobre o corpo discente. Rita é mãe solteira e mora por um tempo com seus três filhos, até o casamento do filho mais velho, a viagem da filha para a India e a revelação da homossexualidade do filho mais novo que também sai de casa para morar com o namorado.

rita-banheiro.jpg

A princípio pensei que a construção de um personagem feminino independente e atraente por suas atitudes, fosse crescer e fazer nascer uma mulher vitoriosa. Porém, a série diminui Rita que aos poucos mostra toda sua fragilidade diante de um mundo pequeno e repressor. A direção pune a personagem, ou seja, castiga a Rita poderosa e alegre, para dar lugar a uma Rita isolada, sem amigos, sem sexo, sem filhos. Rita encolhe para caber na história, em vez de ser vice versa, como se torce o tempo todo. Rita se vê solitária. O caso que ela mantinha com o diretor da escola não prossegue porque Rita não consegue sentir amor por nenhum homem. Ela congelou seus sentimentos por traumas de infância e escolheu o erotismo para sua satisfação e prazer eventuais, sem nenhum compromisso. O encantamento que existe em Rita é exatamente a sua ternura para com os alunos e sua atitude quase maternal para com eles, adotando uma relação de cumplicidade com todos que a procuram, contanto que eles consigam terminar a última série e partir para a faculdade. Os problemas sociais são bem difíceis e se nota a falta de verbas do governo para melhorias internas, além de atitudes não corretas por parte da prefeita local. Interessante esta colocação bem política em um país desenvolvido como a Dinamarca. Entre altos e baixos, Rita passa por uma crise existencial quando o amante se casa com outra colega, os filhos não a procuram e a saciedade antes satisfeita no sexo casual não a atrai mais. A série é rica em mal entendidos, mortes, sucessos, ganhos e perdas. A professora Hjords, tímida e doce, é a única amiga de Rita e juntas elas acertam na maioria das vezes. Mesmo assim, Rita mantém uma distância sobre o que sente. Quando sente. E este mecanismo de defesa lhe deixa alheia aos tantos sofrimentos de alunos que ela ajuda, mas sem se envolver. Ela passa portanto, e é o que o seriado mostra, por uma vida dividida entre o dar e o sentir. Rita representa muito as heroínas medievais e também as guerreiras wikings que lutavam com louvor, mas não entregavam seus corações. Não lhe dizia mais nada, a essência do amor e desta carência, ela se estimulava sendo amorosa, a seu modo, sem nunca repartir dores e cicatrizes, por menos banais que estas fossem.

rita pensando jpg.jpg


version 1/s/// //Fernanda Villas Boas