imagens e palavras

REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

O AUTOR: A METALINGUAGEM DO CINEMA

El autor direção de Manuel Cuenca (2018) com Álvaro (Javier Gutiérrez) sonha em ser escritor, de alta literatura, não escritor de bestsellers que sua esposa Amanda (María León) gosta. Quando ele encontra a mulher o traindo, ele decide largá-la e sair do emprego para tentar alcançar seu sonho. Ele começa a provocar conflitos reais para então poder escrever sobre eles, mas ele é a principal vítima dos seus atos.


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Filme de Javier Gutiérez( 2017) segue a trajetória de Àlvaro, um advogado de cartório em Sevilha. Um personagem médio em praticamente tudo no universo da classe média em que trabalha. Casado com uma escritora que se torna famosa com uma escrita best-seller onde tudo é digerido sem complicações nem aprofundamentos literários, Álvaro é traído pela mulher e passa a desenvolver uma obsessão em ser um autor. Álvaro é um tipo sem relações e não sente compaixão nem sentimentos raros por ninguém. É um personagem infeliz que representa ele mesmo dentro do “ livro” que escreve. Esta sacada é muito boa, pois aumenta o suspense que se sente à medida que sua vida está sendo vivida de fato. Este jogo de leituras nos faz sentir a metalinguagem de O Autor. O apartamento é todo branco, sem móveis, exceto seu computador e cadeira. Álvaro ainda sofrido é direcionado pelo professor de literaturas e se submete à influência do mesmo que escreve sem perceber que está sendo manipulado. Nos encontros entre os dois, finalmente ele vem a saber que o professor está mostrando suas suadas páginas à sua ex mulher. Só assim se afasta do tipo. E amadurece sozinho. Há cenas do personagem nu que não convencem muito, fora a questão da nudez mesmo imitando Hemingway. A própria história passeia por personagens propositalmente escolhidos numa leve referência a Almovóvar, no sentido da linguagem e da imagem. As personagens que interagem no suspense são nitidamente simbólicas., como analisaremos: a velha gorda com quem ele transa e simboliza as ex mães da Espanha. o ex franquista solitário e velho com quem ela joga xadrez e ganha a confiança do velho para saber sua senha do cofre. Esta metáfora é forte porque assim, ele derruba o franquista, símbolo da ditadura na Espanha. O casal de mexicanos em conflito, que Álvaro sabe bem escutar pelo seu celular à noite e por querer saber acaba se envolvendo, e num jantar entrega a senha do cofre do franquista. Nas entrelinhas, ele estará culpabilizando os imigrantes. Há uma fala sobre esta imigração com a gorda que ele seduz para obter informações. Neste tabuleiro de xadrez, todos acabam envolvidos. Álvaro, pensa que está no poder, mas é enganado pelos mexicanos que usam suas digitais para matar o velho milionário e colocar o personagem na cadeia de onde sai no grito, na mentira, acusando um colega. Álvaro é um homem cruel nas suas relações e finge tanto que se torna ator de si mesmo. Esta educação espanhola é fruto da repressão que viveram com Franco. Ao matar a personagem franquista, o diretor se posiciona, assim como, quando torna os imigrantes mexicanos, ladrões e inimigos. Essa visão é impactante e nem todos percebem. O bloqueio de Álvaro, é um bloqueio da arte na Espanha atual e na impossibilidade que sente de criação, verdade e empatia com os imigrantes. E sem dúvida, a pergunta atual: O autor? Onde está a literatura atualmente? o-autor-2017-screen2.jpg


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