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REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

DOR E GLÓRIA: UMA METALINGUAGEM


Dor-e-Glória 1.jpg Dor e Glória, (2019)último filme de Almodóvar, faz um caminho em direção à sua história, principalmente pelo tom pessoal e emocionado do protagonista Salvador, interpretado com primor por Antônio Bandeiras. O diretor, depois da morte de sua querida mãe, busca na infância suas melhores recordações com ela, a presença do catolicismo em sua educação, com restrições e muita disciplina. E, finalmente, seu primeiro deseo por outro homem, aos nove anos de idade..

Esse movimento de volta ao passado permeia a narrativa e costura com primor, o passado ao presente o que nos permite sentir a criança que existe nele e seu poder de superação da crise de depressão em que se encontra. Salvador, teve glória, filmes afamados conquistados com dor, drogas e solidão. Desde criança, tinha grande capacidade de comunicação dentro de um universo muito pobre, onde só ele e a mãe habitam com um laço forte de afetividade.

Ele passa então a reviver momentos marcantes de sua infância introspectiva, na educação católica que recebeu dos padres e sua rejeição à religião católica. Salvador é um vencedor que agora aos setenta, sente uma grande nostalgia somada à dor física e moral. DOR E GLORIA 3.jpg

Contudo, fica mais complacente com os desafetos e a saudade de amores que não viveu. O tempo acentua as dores do corpo, mas alivia as da alma. O perdão, por exemplo, torna-se mais fácil quando a discussão já está no passado, como pontua a cena em que Salvador perdoa Alberto, e a superação de um amor perdido já não dói tanto, como mostra o momento que o protagonista encontra um ex-namorado. Sua energia criativa, na velhice, cheia de dor física, sintomas na coluna vertebral que sustenta nossos corpos, são sanados com médicos, drogas e a solidão de um homem que não quer mais produzir. Seu entusiasmo volta ao ver encenada uma peça antiga, com um antigo amigo de traz sucesso de bilheteria. Assim, ao rever a beleza e os sonhos de sua infância, Salvador se salva do abismo e volta a acreditar na sua arte e talento, terminando do começo, com a filmagem de O primeiro Desejo, como um resgate de sua alma e o reencontro consigo mesmo. Belo, intenso e principalmente, filmado com cores vivas que contracenam com a falta das mesmas, num polaridade que encanta nossos olhos e nossas almas.

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