imagens e palavras

REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

MACHISMO E OPRESSÃO EM A VIDA INVISÍVEL

O filme dirigido por Karim Anouiz se baseia na história de duas irmãs, Eurídice (Carol Duarte) e Guida (Julia Stockler), filhas de uma família tradicional de portugueses no final dos anos 40 e início dos 50 e suas vidas invisíveis e ofuscadas pelo machismo.


A VIDA INVISÍVEL

O filme dirigido por Karim Ainouz é adaptado do romance de Martha Batalha, um melodrama tropical que tem uma visão da sensualidade feminina através das duas personagens principais. As irmãs Eurídice (Carol Duarte) e Guida ( Julia Stockler) são muito unidas contra a opressão social que lhes causa danos morais e físicos.

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Como a narrativa se ambienta nos anos 50, a mulher era educada para casar, ter filhos e ser obediente ao marido. Na maioria das vezes, não têm nenhum espaço para sentir o seu desejo. Aliás, nem sempre estão convictas de sua função na sociedade de tanta obediência, proibição e silêncio perante os homens.

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O amor entre as irmãs é incondicional e o sexo só aparece em situações desagradáveis, como o sangue pós-parto, o estupro conjugal, quando Eurídice é forçada pelo próprio marido a fazer sexo de onde fica grávida. Ela tem um surto e o médico diz que passará, ela poder a´ser mãe.. Ou seja, mulheres são condenadas as ser mãe somente., mesmo contra sua vontade. O sexo está nos seios que amamentam, no corpo da mãe doente. Guida, é o oposto de Eurídice, que pelo menos tenta a carreira de pianista.Ela não se expõe. Faz de conta que nada está acontecendo. download (8).jpg

Guida qur amar e ser amada. É facilmente enganada por um grego que após seduzi-la embarca com ela para a Grécia. A seq8uência é alarmante, pois Guida é abandona grávida e volta ao Brasil. Há várias cenas de sexo pois ela se prostitui para sobreviver. As longas cenas de sexo reforçam o desconforto e a fisicalidade do ato como poucas obras ousam retratar. Pela maldade do pai, elas se separam, uma vez que El esconde todas as cartas de Guida enviadas para a irmã. Assim passam vidas invisíveis. Não se encontram nunca, até o fim de suas vidas. Todo o filme tem a fotografia como guia da mudança de emoções. Cores bem escolhidas como o uso do verde e do vermelho e a variação entre a cor viva e o tom mais esvaziado, muitas vezes acompanhando o momento das vidas das personagens. O posicionamento da câmera e os ângulos também chamam atenção, seja pelo uso constante de planos fechados, que focam as irmãs.

Assim a vida invisível mostra cruamente a invisibilidade da mulher enquanto sua identidade e o olhar sobre seus sofrimentos, suas quedas, seu vazio.

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Sabemos enfim que as cartas nunca foram lidas pois estavam trancadas, o ato do pai patriarcal e obsessivo, cruel com suas próprias filhas é o arquétipo do pai castrador. A vida invisível nos vem acordar para a realidade feminina oprimida, frágil e calada ao longo dos séculos. É um grito que não se vê mas ecoa dentro de todos nós.

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