Larissa Bispo

Apaixonada pelas entrelinhas da vida, pelos mistérios no óbvio e pelas complexidades que abrigam as coisas mais simples

a beleza do não olhar

Uma história sobre distância, olhar, contato e sua coexistência nos dias de hoje.


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"Evitavam se olhar. E se viam. A névoa que se formava entre eles dissipava-se a cada dia, aproximando-os, mas eles não podiam se aproximar. Seria o fim. Qualquer palavra não dita os destruiria, bem como a névoa que ainda os mantinha vivos. Nunca se olhavam. Só sobreviveriam enquanto a distância permitisse que cultivassem o não olhar; o não contato; o não toque.

Alimentavam-se daquela compreensão mútua que compartilhavam em sua relação, que atravessava os limites desse mundo, que buscava uma forma de não ser - e era. Suas necessidades não transcendiam as regras que os defendiam, pelo contrário, a solidão de ambos mantinha a confiança mútua que depositavam em si mesmos.

Uma vez quase se olharam, mas a vontade de existirem em uma mesma órbita era ainda maior que os desejos que, por fim, os destruiriam. A pequenez de seus corpos era revelada enquanto viviam ao mesmo tempo, no mesmo espaço. Isso era o suficiente. Só precisavam saber que todos os dias contariam o mesmo número de estrelas ao olhar o céu.

A imagem de seus rostos e olhares nunca descobertos cobriam-se atrás das estrelas, mas se revelavam antes de dormirem. E eles se olhavam. Enxergavam-se como nenhuma outra forma de ver um ao outro e sabiam disso. Ele tinha olhos castanhos, verdes, azuis, vermelhos de raiva e cinzas de calma, a cada vez que ela queria olhá-lo. Ela tinha sobrancelhas grossas, finas, cílios curtos e longos, bocas macias para falar e ferozes para beijar sempre que ele fechava os olhos. Essa era a maneira que gostavam de ser ver. Era a única.

E se, de repente, a vontade de se olharem se tornasse maior do que a extensão do amor que sentiam, fechavam os olhos."


Larissa Bispo

Apaixonada pelas entrelinhas da vida, pelos mistérios no óbvio e pelas complexidades que abrigam as coisas mais simples.
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