Larissa Bispo

Apaixonada pelas entrelinhas da vida, pelos mistérios no óbvio e pelas complexidades que abrigam as coisas mais simples

a minha profissão não me define

Vejo cada vez mais pessoas começarem a resposta da pergunta "Quem você é?" com uma palavra: aquilo com o que escolheram trabalhar. Mas o isso quer dizer sobre nós mesmos? Será que ser alguém necessariamente significa ter uma profissão?


profissao.jpg

Desde que eu me entendo por gente, lá nos primeiros anos de escola, ouço as pessoas me perguntarem "O que você vai ser quando crescer?" e ainda não sei responder. Nunca gostei desse tipo de pergunta. Será que ser alguém necessariamente significa ter uma profissão?

Sempre me questionei o porquê de o fato de termos um diploma vale mais do que, por exemplo, ser alguém que realmente faça a diferença no mundo e desenvolva as suas potencialidades. Não que a gente não consiga fazer isso dentro da profissão, mas e o resto?

Quando me perguntam quem eu sou ou me pedem para eu me descrever com poucas palavras, raramente começo falando sobre minha vida acadêmica. Não porque não goste do que eu estudo e a profissão que eu escolhi, mas porque antes de querer ser jornalista, eu quero ser sensível, companheira, amiga e conseguir enxergar a beleza no mundo. Bem, a maioria dessas coisas eu construo através de relações com o outro e comigo mesma e adquiro conforme eu cresço. Então é isso que eu quero ser quando crescer. Quero ser mais, quero ir além.

Quando eu crescer (e seja lá o que isso signifique, visto que conheço crianças que já cresceram mais do que adultos), não quero ser alguém limitada a fazer algo que me dê satisfação profissional, mas quero ser conhecida pela minha essência, o que nasceu comigo e eu aprendi a desenvolver. Desde que entramos na escola, aprendemos que devemos traçar um rumo na vida desde então e isso significa escolher, desde já, o que faremos pelo resto da vida. Mas, para isso, devemos seguir alguns simples (?) passos.

1) Estudar até que isso consuma todas as suas energias, passar de ano na escola e, de preferência, ser o(a) melhor da classe.

2) Escolher somente uma entre uma infinidade de coisas que você pode fazer com a sua vida. Ingressar em uma boa faculdade e conseguir um diploma. Mas não somente isso, ir além, amar a sua profissão e fingir que você foi predestinado a fazer aquilo desde que nasceu.

3) Casar, ter filhos e construir uma família sólida. Não deixar o emprego atrapalhar sua vida amorosa ou o seu tempo com os filhos.

4) Se aposentar, ter uma velhice confortável e, finalmente, ter tempo para ser. Ser quem você queria ser desde que te perguntaram pela primeira vez.

Você pode estar pensando "Isso é besteira, vamos falar da parte prática: dinheiro". Sim, você vai precisar de dinheiro. Você vai precisar de um emprego. Você vai precisar tomar um rumo para sobreviver nesse mundo meio descontrolado e saber onde se encaixar. Mas será que a pessoa que nunca achou a profissão ideal, necessariamente está condicionada a ser infeliz? Não.

Empreender significa conseguir ser bom naquilo que está ao seu alcance. Vejo milhares de pessoas que se acham fracassadas por não conseguirem ser o profissional que tanto gostariam e se condenam a serem infelizes pelo resto da vida por isso, quando o verdadeiro segredo está em tentar ser feliz naquilo que se tem e que se conseguiu conquistar. Não necessariamente você vai conseguir ser o melhor no que faz ou fazer realmente o que queria quando escolheu o que cursar na faculdade, mas isso não pode te impedir de ser feliz e, principalmente, ser vitorioso. Admiro muito Steve Jobs, é um dos maiores empreendedores que a indústria e o mundo já viram, mas será que ele realmente se tornou quem ele gostaria de ser? Será que ele conseguiu resolver seus problemas familiares e dilemas pessoais?

Mais da metade dos primeiros nomes da Fortune, as pessoas mais ricas do mundo, têm a mesma profissão. A profissão que os permitiu ser quem eles realmente são, se descobrirem na forma mais simples e direta e amarem a sua essência: nenhuma.

Ser pode significar uma infinidade de possibilidades e todos os dias, temos a escolha de sermos quem quisermos. Podemos ser diferentes pessoas na mesma vida, com a mesma carreira. Pessoas sensíveis, fortes, choronas, amorosas, verdadeiras, tímidas e uma penca de outros adjetivos que, na verdade, não nos definem. Assim como nossa profissão. Crescemos todos os dias; mudamos todos os dias; somos outros todos os dias.

Drummond disse uma vez: "Que vai ser quando crescer? Vivem perguntando ao redor. Que é ser? É ter um corpo, um jeito, um nome? Tenho os três. E sou?"


Larissa Bispo

Apaixonada pelas entrelinhas da vida, pelos mistérios no óbvio e pelas complexidades que abrigam as coisas mais simples.
Saiba como escrever na obvious.
version 3/s/sociedade// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Larissa Bispo