Larissa Bispo

Apaixonada pelas entrelinhas da vida, pelos mistérios no óbvio e pelas complexidades que abrigam as coisas mais simples

em dias barulhentos, mais silêncio, por favor

Vozes que se misturam, se confundem e se perdem em meio a tantas outras. Por que não valorizar, apreciar o silêncio e acreditar no seu poder de transformação?

silencio.jpgPor que o não-silêncio? Por que temos essa necessidade de destruí-lo, condená-lo, reprimi-lo? 

O silêncio traz, dentro de si, as melhores palavras que podem ser pronunciadas. O silêncio grita; sussurra; implora; cura. O silêncio nada mais é do que a expressão exata do que as vontades não conseguem exprimir. Errado está quem acredita que o silêncio significa ausência; mais ainda quem acredita e confia no poder dos impulsos e não dos pensamentos. 

Uma das sensações mais confortadoras é poder estar em silêncio a dois e amar isso. Quando conseguimos ficar em silêncio com alguém além de nós mesmos, descobrimos verdades escondidas; quando conseguimos ficar em silêncio com nós mesmos, nos encontramos. A verdade está nas frações de segundos em que fechamos os olhos para eles mesmos poderem respirar, está nas respirações que demoram mais de cinco segundos, naqueles momentos em que nos perguntamos tudo o que talvez nunca saibamos. 

O que não é necessário ser dito está em tudo o que só precisa existir para se possuir. Cada brisa, cada vento, cada pulsação que sentimos nos faz entender que nada é como a vontade de ficar onde estamos. E sentir. Tudo. Fechar os olhos e sentir. Enxergar é um dom; ouvir é um desejo; mas todos sentimos. Não precisamos de nada para sentir. Olhando ao redor, sinto uma dificuldade cada vez maior das pessoas em sentirem. Há certos momentos que tornam-se inesquecíveis exatamente pelo fato de não poderem ser descritos, apenas sentidos- é aí que podemos perceber o sentido pelo qual vivemos.

O budismo diz que a cada palavra que deixamos sair, liberamos uma parte do nosso Chi (energia). Assim, valorizando o silêncio e sabendo expressar-se da hora certa, você aprenderá a desenvolver a arte de falar sem perder energia. Dessa forma, há a possibilidade de uma comunicação mais intensa e fluida entre as pessoas. O silêncio está relacionado a uma ligação mais profunda consigo mesmo, gerando auto-conhecimento e reflexão.

Hoje, podemos perceber todos querendo ser ouvidos, gerando  vozes nas quais não sabemos ao menos qual direção querem seguir ou qual seu objetivo. Possuímos uma necessidade crescente de falar, falar e falar. Falar para passarmos determinada imagem; falar para parecermos melhores; falar para que o outro não nos ache chatos. Quando, no fundo, imerso em palavras que não nos dizem, nos tornamos monótonos e vazios. Uma vez disseram-me que o silêncio também é resposta e, mais que isso, é a conexão mais tênue e completa com o mundo.

Precisamos amar mais essa necessidade de estar em sintonia com o mundo e consigo mesmo. Deixar-se ser tocado e não precisar de explicações; compreender sem precisar que o outro diga; amar sem querer entender. Que as palavras continuem sendo verdadeiras dádivas entre as pessoas, mas que saibamos abster-se delas e deixar que o silêncio entre. Sejamos silêncio. Sem o amor seríamos olhos e ouvidos que não enxergam ou ouvem. Sem as palavras não teríamos o silêncio. Sem o silêncio não seríamos.


Larissa Bispo

Apaixonada pelas entrelinhas da vida, pelos mistérios no óbvio e pelas complexidades que abrigam as coisas mais simples.
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