Larissa Bispo

Apaixonada pelas entrelinhas da vida, pelos mistérios no óbvio e pelas complexidades que abrigam as coisas mais simples

precisamos falar sobre Valentina

Vamos falar sobre isso. Valentina não foi a primeira e não será a última.

Valentina. 12 anos.

E a nossa conversa sobre pedofilia infantil.

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Os que postaram frases como essa no Twitter:

Pedófilos. Eles são parte de uma cultura - presente no cotidiano de toda brasileira - que normaliza a sexualização de crianças.

Eu não sei se o que mais me chocou ao ver as declarações (que não valem ser mencionadas) no Twitter foi o fato de ela realmente ser vista como uma mulher ou se foram as pessoas falando "mas ela nem corpo tem". É exatamente aí que mora o problema. Valentina se parece e se comporta como uma criança de 12 anos, mas e se fosse diferente? Ainda assim permitiríamos esse tipo de comentário?

Voltamos à estaca zero no antigo e dito como recente problema da objetificação da mulher.

Isso é fruto de alguns valores enraizados na sociedade. O suposto amadurecimento precoce de mulheres é um deles. Quantas vezes já ouvimos que meninas namoram meninos mais velhos pois elas "crescem mais rápido"? Elas não crescem mais rápido, são dadas às meninas tarefas e responsabilidades que muitas vezes não condizem com o que é imposto à maioria dos meninos. Isso não é natural. Crianças são hipersexualizadas em propagandas de televisão e na mídia diariamente. Isso não é natural.

Quando uma criança pede para comer a sobremesa antes do jantar, não deixamos pois ela ainda não tem discernimento para decidir sobre o que é mais saudável pra si mesma; quando uma criança pede para ingerir álcool, negamos pois ela ainda não sabe lidar com os malefícios e consequências que lhe pode trazer; quando uma criança pede para dirigir, proibimos pois ela não tem idade ou responsabilidade suficientes.

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Valentina, em nenhum momento, deu consentimento para que fosse moralmente assediada dessa forma. E mesmo se tivesse dado, por que quando se trata dessa questão, entregamos tamanha responsabilidade de entendimento sexual à uma criança?

Mas a culpa é da Valentina. Ela é culpada por cozinhar tão bem, tão cedo; ela é culpada por se expor dessa forma na televisão brasileira; ela é culpada por se encaixar nos padrões de beleza que cultuamos; ela é culpada por ser Valentina.

A culpa não é da aparente conformação com essa ideia de que "os homens não se controlam"; da confirmação de que cada vez mais, crianças são vistas como objetos sexuais. Isso não é recente. Isso não acontece somente nas redes sociais ou em um reality culinário. Eu passo por isso desde os 12 anos. Aos 12 anos, talvez eu não conseguisse distinguir elogios de assédios. E por quê? Porque eu era uma criança, assim como Valentina. Vulnerável, inocente, à mercê de uma parcela masculina que nos envergonha.

Vamos falar sobre isso. Precisamos falar sobre isso. Valentina não foi a primeira e não será a última.


Larissa Bispo

Apaixonada pelas entrelinhas da vida, pelos mistérios no óbvio e pelas complexidades que abrigam as coisas mais simples.
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