Larissa Bispo

Apaixonada pelas entrelinhas da vida, pelos mistérios no óbvio e pelas complexidades que abrigam as coisas mais simples

Olhos Azuis: a busca por empatia

Produzido de forma dinâmica e didática ao abordar um tema tão sério e importante em todas as sociedades, o documentário Olhos Azuis (Blue Eyed) é uma ótima opção para refletir sobre discriminação racial, lugar de fala e, principalmente, empatia.

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Empatia. Talvez essa seja a palavra que tanto procuramos. Em uma sociedade que revela seus preconceitos de gênero, idade, sexualidade, religião e cor, colocar-se no lugar do outro e tentar enxergar a realidade através de uma perspectiva diferente se torna cada vez mais difícil.

O documentário Olhos Azuis (Blue Eyes), de Jane Elliot, foi produzido em 1996, no Kansas, mas se mostra atemporal diante da discriminação racial que perpassa não só a realidade americana, mas também a brasileira. Colocar-se no lugar do outro – é exatamente isso que a professora e personagem principal do filme, Jane Elliot, faz com brancos norte-americanos valorizem. Elliot divide 30 pessoas, de diferentes idades, entre policiais, professores e assistentes sociais em dois grupos: o primeiro formado por homens e mulheres, brancos e negros, de olhos castanhos e o segundo por pessoas brancas de olhos azuis. Para a identificação, todas as pessoas do segundo grupo utilizam uma espécie de gola no pescoço. 

A ideia do experimento veio de livros nazistas e experiências pessoais de Elliot e simulam a mesma situação já realizada por ela quando mais jovem, em uma classe de terceira série, na qual lecionava, representada no documentário The Eye of the Storm. O objetivo da professora (afastada da profissão, no Kansas, nos anos 60, devido a experiência realizada com seus alunos durante a aula) é fazer os norte-americanos de cor branca entenderem e sentirem o que é o sofrimento que os negros enfrentam mesmo após 20 anos do fim da segregação racial nos Estados Unidos.

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As pessoas de olhos castanhos representam os brancos e as de olhos azuis, os negros. O experimento começa com a preparação do primeiro grupo sendo instruído a tratar de forma hostil, indiferente e menosprezadora o segundo durante todo o tempo. Quando juntados os ambos os grupos em uma mesma sala, o de pessoas de olhos castanhos senta em cadeiras, enquanto o grupo de olhos azuis senta no chão, permitindo uma situação de superioridade dos que representam os brancos em relação aos que representam os negros. 

Elliot causa inúmeras situações de constrangimento ao grupo de olhos azuis, testando seu controle emocional, deixando-os sem respostas para suas perguntas e confusos em relação à suas falas e movimentos. Dessa forma, ela consegue mostrar ao grupo que não são capazes de mudar sua realidade inferior por si mesmos. Através de seu discurso, mostra que uma vez considerados inferiores e desprovidos de recursos e inteligência devido, supostamente, a pouca pigmentação presente em seus olhos, eles não têm força suficiente para reagir contra o grupo de olhos castanhos. Todo o contexto no ambiente da sala durante as duas horas leva à repressão de suas ideias e movimentos.

Elliot formula perguntas contraditórias ao grupo de olhos azuis, a fim de mostrar como os brancos faziam com os negros para reforçar uma suposta incapacidade geral durante a segregação racial e revela o quanto isso ainda encontra raízes nos discursos discriminatórios. Ela procura fazê-los entender, simulando de forma eficiente, uma situação que não procura resolver a questão racial nos Estados Unidos, mas conscientizar parte da população branca a respeito do seu papel social e a necessidade de desconstrução de atitudes e falas racistas.

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O objetivo do experimento é conseguir uma profunda transformação pessoal de cada um dos presentes. O exercício faz com que os brancos percebam, de forma desconfortável e instigante, que a situação que tiveram que enfrentar durante as duas horas, de pressão psicológica, inferiorização e humilhação moral é enfrentada todos os dias pelos negros em seu bairro, cidade e país.

O documentário consegue, de forma bem estruturada, simular a segregação racial enfrentada pelos Estados Unidos, mostrar como ainda há resquícios do preconceito no seio da sociedade norte-americana e influenciar o olhar do telespectador – que pode colocar-se no lugar das pessoas envolvidas em algumas partes - em relação ao assunto. Produzido de forma dinâmica e didática ao abordar um tema tão sério e importante em todas as sociedades, é uma ótima opção para refletir sobre discriminação racial, lugar de fala e, principalmente, empatia.


Larissa Bispo

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