Larissa Bispo

Apaixonada pelas entrelinhas da vida, pelos mistérios no óbvio e pelas complexidades que abrigam as coisas mais simples

sobre sorvete, café e água dizerem tanto sobre nós

De antemão aviso que o que está escrito aqui é fruto de palavras trocadas em uma manhã nublada qualquer e não tem finalidade de chegar a lugar nenhum. Talvez tudo isso seja muito óbvio. A questão é que, quando se trata de autoconhecimento, nem sempre é tudo tão claro.


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De antemão aviso que o que está escrito aqui é fruto de palavras trocadas em uma manhã nublada qualquer e não tem finalidade de chegar a lugar nenhum. Talvez tudo isso seja muito óbvio. A questão é que, quando se trata de autoconhecimento, nem sempre é tudo tão claro. A impressão de que nunca vamos nos conhecer por completo é real e por vezes nos consome, mas não podemos desistir de nós mesmos. 

Há algum tempo estava tendo mais uma das conversas com uma amiga – que não é só uma amiga, mas uma daquelas pessoas que cruzam o nosso caminho e nos entendem em uma profundidade imensurável – dentre tantas sobre nós mesmas e sobre tentarmos entender o que se passa aqui dentro. Depois de pelo menos duas horas conversando, chegamos à conclusão que três pilares regem a nossa vida: a felicidade própria, o amor e os nossos relacionamentos (sejam eles amorosos ou não). Apresento-lhes sorvete, café e água.

Todos nós, desde que nascemos, temos o nosso próprio sorvete. É aquilo que nos faz bem independentemente de qualquer outra pessoa. São as pequenas coisas que nos fazem felizes e conhecemos bem. Podemos mudar o sabor do sorvete conforme a vida vai passando, podemos provar novos sabores e enjoar dos primeiros, mas o sorvete sempre existe. É nossa função não o deixar derreter e isso só depende da gente. Podemos oferecê-lo para provarem, mas nunca entregar nas mãos de outra pessoa. O sorvete é de total responsabilidade de quem o tem. Isso é a nossa felicidade própria. 

O café nada mais é que o sorvete do outro. É como enxergamos o que faz as pessoas ao nosso redor bem, mas não necessariamente nos faz. O segredo está em nos sentirmos confortáveis com o que faz o outro bem e não necessariamente a nós mesmos, uma vez que sabemos que somos autossuficientes com o nosso sorvete. Nós não precisamos de café para ficarmos bem. Podemos provar, degustar, ou por um tempo tomar o café com a outra pessoa, mas é preciso manter o nosso sorvete gelado, sempre. Quando conseguimos ficar felizes vendo alguém que gostamos saboreando o próprio café, mesmo que isso não signifique que ela goste do nosso sorvete, estamos amando. Ficar feliz com a felicidade do outro - isso é amor. 

No meio disso tudo, temos a água. O copo d’água é o que nos une com alguém. Ao falar de um relacionamento amoroso, a água é o que as duas pessoas compartilham juntas. É a construção do que faz ambas bem, o que elas têm em comum e o que complementa tanto o sorvete quanto o café. Manter o copo d’água cheio sem deixar o sorvete derreter e respeitando o tempo que o outro toma o café talvez sejam as maiores dificuldades de se relacionar com alguém. 

Às vezes, esquecemos da água por estarmos muito preocupados com o próprio sorvete ou com o café do outro. A questão é: o limite de uma relação com alguém se encontra no copo d’água. Nenhum problema de um relacionamento é realmente do relacionamento se as duas partes não quiserem que seja. Isso significa que o copo d’água é o que as duas pessoas podem e devem se revezar para encher – discutir, conversar, e respeitar tempo e espaços necessários. 

Desde que criamos essa analogia, falamos muito sobre a vida e nós mesmas dessa forma e... Nada mudou. Talvez não mude nada na de ninguém. Mas para que servem sorvetes, cafés e copos d’água senão para tentar descobrir um pouco mais dessa confusão que mora dentro da gente numa manhã qualquer?


Larissa Bispo

Apaixonada pelas entrelinhas da vida, pelos mistérios no óbvio e pelas complexidades que abrigam as coisas mais simples.
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