Larissa Bispo

Apaixonada pelas entrelinhas da vida, pelos mistérios no óbvio e pelas complexidades que abrigam as coisas mais simples

uma crônica descoberta

Sara viu Sara. Enxergou-a na sua forma mais simples e completa de ser: ser, e só. Imaginou a quantidade de possibilidades que a esperavam e a imensidão de decisões que poderia tomar - as suas próprias decisões, que agora a pertenciam.

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Sara era nada mais nada menos que uma jovem com o coração recheado de expectativas, sonhos e descobertas que, há pouco tempo, não julgava serem passíveis de compreensão. Ainda não julga. A faculdade de Direito a fazia muito feliz, assim como seus amigos que achava serem os melhores do mundo – por vezes melhores até que ela mesma – e sua família que a apoiava seja qual fosse a sua decisão, desde que fosse a correta. Era uma daquelas manhãs de sol em que é quase proibido fazer outra coisa senão desfrutar de cada raio de sol que ele nos transmite, dando a sensação de que nada é mais forte do que a luz que ilumina a face e chega à alma.

Sara levantou da cama, desceu as escadas e pode sentir o cheiro próprio da sua casa, ouvir o canto dos pássaros se misturando com as primeiras buzinas lá fora. Até esse momento, era um dia como outro qualquer. A louça do jantar solitário de ontem a noite ainda estava sobre a pia e se juntaria a louça de mais tarde quando voltasse, pois a vontade de tomar a xícara de café era maior que a de ser completa. Acabou por perder a hora ao observar uma fila de formigas que caminhavam em direção ao pote de açúcar aberto em cima da mesa, e foi nesse momento que percebeu que o dia não seria como outro qualquer. Abstraiu-se de qualquer pensamento. Correu até o carro na garagem que o esperava, sempre no mesmo lugar e, ao entrar, pode sentir os primeiro raios de sol entrando pela janela e a convidando a não ir à faculdade. Não ir à faculdade significava não apresentar o trabalho que preparou a noite passada inteira. Não ir a faculdade significava não ver seus amigos e não conversar sobre os mesmos assuntos de sempre. Não ir a faculdade significava não preencher a sua mente com mais uma cláusula de Direito Ambiental e mais uma vez ocupar-se de livros e palavras e vozes.

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Pela primeira vez na vida, ir a praia no meio da semana parecia-lhe mais convidativo do que seguir a rotina que lhe fazia tão feliz. Apesar do lindo dia, a segunda feira tornava a praia vazia e era possível observar o horizonte se perdendo no calçadão pouco movimentado que contornava a areia. Parou o carro preto debaixo de uma árvore para que, quando retornasse e se retornasse, a sensação boa de maresia não se perdesse no calor que estaria lá dentro. Antes que pudesse tocar os seus pés na areia, pode sentir o vento beijar sua face e as ondas que iam e voltavam, quase que numa valsa, de melodia e ritmo constantes, abraçá-la.

Respirou fundo e, ao dar o primeiro passo em direção ao mar, sentiu seu pé afundar na areia, ao mesmo tempo que sentia o espaço a sua volta parar. Gostaria de parar junto a ele. Admirava o tempo, invejava-o por conseguir dominá-la mais do que si mesma. Percebeu então que não conseguia mais abrir os olhos e suas pernas caminhavam sozinhas. O medo de cair a fez sentar na areia e logo depois deitar, os cabelos negros e soltos jogados sobre a areia e a mente coberta de maresia e confusão. Não ouvia ou enxergava qualquer coisa, a não ser as formas brancas e negras que dançavam em frente aos seus olhos e o som do mar que parecia tentar chegar até ela. Aquela mistura de formas conhecidas e a cada vez que apareciam mais diferentes, eram um convite para não despertar daquele parar do tempo.

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Parecia pensar em tudo, mas não concretizava nada em sua mente. Por mais que tentasse, não conseguia pensar em qualquer complexidade. Era como se, pela primeira vez, não controlasse o que sentia e descobrisse a imensidão de sensações que é capaz de despertar dentro de si. A monotonia da rotina a qual se submetia por livre e espontânea vontade e lhe dava tanta felicidade, havia sido completamente quebrada. Por quê? Por que decidira ir à praia aquele dia? Por que não havia simplesmente seguido em frente e não virado a esquerda no sentido da mesma? Por que não apresentara o trabalho e continuara na felicidade a qual havia construído?

Agora estava ali, no meio da areia sem fim, em meio a sensações desconhecidas, ao parar do tempo, ao parar da sua própria vida. Abriu os olhos lentamente e pode ver o céu sem nuvens; pode se ver. Sara viu Sara. Enxergou-a na sua forma mais simples e completa de ser: ser, e só. Imaginou a quantidade de possibilidades que a esperavam e a imensidão de decisões que poderia tomar - as suas próprias decisões, que agora a pertenciam. Fechou os olhos novamente. Dessa vez, não lutou para abrir. Queria poder nunca mais perder-se. Ali, dentro de si mesma, podia ser o que quisesse. Podia até mesmo fazer Dança ao invés de Direito, dançar com as formas brancas e negras que ocupavam a sua visão; podia ser sozinha e não precisar de amigos melhores que ela; podia ser melhor que todos a sua volta – por mais que soubesse que naquele momento ou no próximo, não havia ninguém por perto – podia ser o mundo todo, a mulher toda, a vida toda. Dentro de si mesma podia ser alguém que gostaria de ter sido antes que o mundo lhe impusesse perfeições.

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Podia ser como uma criança; como um bebê que acaba de nascer e encontra os primeiros raios de luz; como os primeiros raios de sol que deu de encontro aquela manhã. Por um segundo, tentou mover-se e deu um suspiro que chegou ao fundo de tudo o que a consumia. O coração batia forte, contínuo e constante. Ela controlava o tempo, controlava si mesma. Agora nada mais fazia sentido e Sara não sabia se essa mistura de sentimentos era boa ou ruim. Tentou levantar-se, porém, o aperto no peito era tão grande que, ao mesmo tempo em que a sufocava, tornava-a reclusa, como se somente o próprio corpo pudesse protegê-la.

Por fim, descobriu que era possível se descobrir. Não era preferível permanecer em sua imensa criação do mundo e de si mesma a fim de dividi-la com os outros. Abriu os olhos, levantou, sacudiu os cabelos para que a areia saísse de suas mechas, como se todas as perturbações dos minutos anteriores pudessem ir embora também. Olhava para os lados como se pudesse voltar no tempo e deter os poucos olhares destinados a quem deitara na areia e descobrira si mesma. Da praia podia ver o carro preto no outro lado do calçadão, embaixo da árvore, imóvel, como ela havia deixado. Diferentemente dela, ele ainda era o mesmo.

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Entrou no carro e percebeu que os raios de sol que entravam pela janela já não eram tão intensos; o cheiro de maresia permanecia dentro dela e dentro do carro, mas a árvore não o cobria mais. Talvez, se corresse, ainda daria tempo de apresentar o trabalho, mas a verdade é que já não havia como consertar aquele dia. Sara chegou a casa, estacionou o carro, tirou os sapatos antes de entrar, pendurou as chaves na parede, lavou a louça na pia, fechou o pote de açúcar esquecido, subiu as escadas e dormiu. Teria que inventar alguma desculpa para o professor de Direito Ambiental e para seus amigos, que – para que nada fosse quebrado – estariam se perguntando qual a razão de sua primeira falta no ano.

Dormiu em um sono leve e profundo. Não sabia mais o que ser e agora sabia quem era.

Pela primeira vez, Sara acordou Sara.


Larissa Bispo

Apaixonada pelas entrelinhas da vida, pelos mistérios no óbvio e pelas complexidades que abrigam as coisas mais simples.
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