Larissa Bispo

Apaixonada pelas entrelinhas da vida, pelos mistérios no óbvio e pelas complexidades que abrigam as coisas mais simples

imploramos por sensibilidade

Ser sensível no mundo de hoje é um ato de coragem. É preciso fôlego para escolher revelar a imensidão de existências dentro de si a se distrair com qualquer coisa no Netflix.


Essa é uma constatação pessoal recente. É, também, um pedido de socorro. Por isso, vamos direto ao ponto.

Nós estamos matando a sensibilidade, todos os dias. E precisamos parar.

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É muito mais que uma simples questão de empatia e vai além da necessidade de se colocar no lugar do outro e tentar enxergar o mundo sob o seu ponto de vista. Esbarra nesse sentimento constante do não-toque, das não-interações reais, da falta de profundidade. Ao fazer parte de uma geração que valoriza a falta de contato, ridiculariza os pequenos detalhes e não prioriza o autoconhecimento, me vejo constantemente sufocada por essa rapidez dos encontros, com o outro e consigo mesmo.

Ser sensível no mundo de hoje é um ato de coragem. É preciso fôlego para escolher revelar a imensidão de existências dentro de si a se distrair com qualquer coisa no Netflix. É preciso altruísmo para entender a necessidade de ser sincero com os próprios sentimentos e limitações. Acima de tudo, é preciso paciência para enfrentar a rapidez e superficialidade sob as quais somos submetidos e perpetuamos.

Nós podemos parar alguém no meio da rua e perguntar como está sendo o seu dia. Nós podemos agradar alguém sem pretensão ou objetivos. Nós podemos manter o mesmo assunto em uma conversa por mais de 10 minutos. Nós podemos ficar em silêncio por mais de 10 minutos. Nós podemos chorar mais. Nós podemos tirar um dia para nos priorizar. Nós podemos tirar um dia para priorizar o outro. Nós podemos parar e perceber melhor os pequenos atos necessários a alguém. Nós podemos precisar um do outro. Nós podemos ligar para alguém que acabamos de conhecer sem o medo de nos acharem inconvenientes. Nós podemos ser inconvenientes. Nós podemos fugir desse culto da individualidade e entender que nossos problemas não são os maiores de todos. Nós podemos fugir. Nós podemos ter tempo. Nós podemos ser o melhor que queremos porque somos feito de mudanças e ressignificações. Nós podemos. Nós precisamos poder e nos sentirmos a vontade para isso.

Conexões não são importantes - são essenciais. Conexões em profundidade são energia. Não estou interessada nas causas do que nos levou até aqui, mas nessa sensação de vazio que sinto de muitos a minha volta e na certeza de que nós podemos preenchê-lo, uns com os outros.

Perceber o outro não é fácil. Não deslocar as necessidades do outro às nossas e hierarquizar sentimentos é uma tarefa árdua diária, mas que precisamos fazer. E essa constatação tem origem na simples percepção de que naturalizamos, todos os dias, o não sentir. Escondemos todos os resquícios do que pode nos tirar da zona de conforto de nos conhecer, ao conhecer melhor o outro. Nos afogamos em palavras repetidas e conselhos reproduzidos. Me pergunto se ainda nos importamos com a possibilidade de aprendizado presente nas relações - sejam elas baseadas em minutos, meses ou décadas.

E dá medo, mesmo. Hoje, se tornou assustador experimentar a quantidade de sensações a qual estamos propícios sentir. Reprimimos e escondemos nossa complexidade. Receamos mostrar e compartilhar inseguranças, defeitos, impulsos. Perdemos a capacidade de encontrar a imensidão de possibilidades em sair da zona de conforto. Parar para ouvir o que o seu porteiro ou o moço ali da esquina tem a dizer. Ouvir um estilo musical desconhecido. Parar em um dia cansativo e convidar alguém para tomar um café. Não recusar o convite ao café.

A sensibilidade está dentro da vontade de entender o que o outro quer nos dizer e o que realmente queremos dizer ao outro. É o entendimento de que podemos crescer ao adentrarmos em nós mesmos. É não mostrar só o que queremos, mas o que precisamos que seja mostrado, falado, percebido.

Ser sensível não é uma fraqueza, mas ter a capacidade de ser honesto com as próprias emoções. Se deixar ser. Encontrar e permitir a própria sensibilidade e entender os sentimentos a nossa volta, que não nos pertencem mas fazem parte de nós por existirem, é um exercício de crescimento pessoal. É, também, transgressão nos dias atuais. É revolucionário. É lindo.

Aos que sentem, a voz é a mesma.

Nós imploramos.


Larissa Bispo

Apaixonada pelas entrelinhas da vida, pelos mistérios no óbvio e pelas complexidades que abrigam as coisas mais simples.
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