in quietude

Uma pausa para pensar nas coisas do mundo

Claudio Lasas

Três coisas que nunca recuso: filosofia, yoga e um cafezinho.

As Chaves de Casa: a vontade e o amor como forças de superação humana

Na relação com o outro, o óbvio é aquilo que percebemos de forma imediata ou é necessário um esforço para conhecermos o cerne da alma humana? As máscaras que usamos para projetar uma imagem idealizada à sociedade servem para mostrar ou para esconder aquilo que somos e sentimos? O filme “As Chaves de Casa” nos convida a ponderar sobre esta e outras questões pertinentes aos nossos relacionamentos humanos e familiares.


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“As Chaves de Casa” é um filme de 2004, dirigido por Gianni Amelio. Aos 15 anos, Paolo, um garoto italiano, portador de grave deficiência física e mental, conhece Gianni, seu pai, que o abandonou no dia de seu nascimento, logo após sua mãe ter morrido pelas complicações do parto.

As primeiras cenas do filme mostram uma estranha dualidade entre pai e filho. Paolo, fisicamente frágil e dependente, é na verdade um garoto forte, lutador e indiferente às dificuldades de sua vida. O pai, por sua vez, com saúde e vigor físico de sobra, não consegue suportar o sofrimento de ver o filho naquela difícil situação. Estabelece-se assim quase que uma relação de dependência do pai em relação ao filho.

Mas apesar de forte e endurecido, o garoto irradia doçura e amor. Mesmo tendo sido abandonado ao nascer, não carrega qualquer sinal de mágoa pelo pai, tratando-o desde o início com carinho e ternura. Essa postura de perdão e amor incondicionais comove Gianni, que se sente culpado pelo abandono imposto ao filho e constata, talvez pela primeira vez na vida, que apesar de fisicamente saudável, é uma pessoa moral e espiritualmente deficiente.

A grande transformação acontece quando, já no hospital da Alemanha, enquanto aguarda o tratamento de Paolo, o pai conhece Nicole, uma mulher forte que se dedica a cuidar de sua filha com deficiências ainda mais graves. A força e a determinação de Nicole servem de inspiração para que ele tire o foco dos erros de seu passado e acredite no que pode fazer pelo filho de agora em diante.

as chaves de casa imagem nicole.jpg As atuações de Kim Rossi Stuart (Gianni) e de Charlotte Rampling (Nicole) são excelentes.

Ao contrapor as aparências com o que se esconde por trás das máscaras, o filme nos faz refletir sobre o que é real e o que é ilusório. Afinal, o óbvio é aquilo que se nos apresenta de forma fácil e imediata ou, ao contrário, é necessário um esforço para percebermos o que se esconde no íntimo da alma humana? As máscaras que são a parte mais visível da persona, da personalidade humana, servem para mostrar ou para esconder quem realmente somos? É engraçado pensar que nas relações humanas o contato apenas aparentemente se dá através das personalidades que um projeta para o outro, mas que, de verdade, o que está em jogo num relacionamento, seu fundamento portanto, são os sujeitos por trás das aparências, a parte do nosso ser que não se mostra.

Gianni, o pai, se vê refém da culpa, pelo abandono imposto ao seu próprio filho. É a forma como ele, a princípio, consegue lidar com sua própria fraqueza humana, punindo-se pela falha moral que o acompanhou por longos 15 anos. O que ele constata, porém, ao conhecer Nicole, é que essa aparente solução não resolve seu problema, muito menos o de seu filho. Sua passividade diante dos erros do passado não servem de consolo a Paolo e em nada contribuem para trazer algum alívio à fragilidade do filho. A redenção do pai somente se dá quando resolve esquecer o passado e agir (ou reagir) a partir do momento presente, apoiando o filho no “aqui e agora”. É a partir dessa atitude, corajosa por sinal, de tomar as rédeas sobre sua relação com Paolo que o pai consegue aproximar-se do filho. A união de sua força física com a força espiritual do garoto fortalece a ambos, que agora passam a contar com o apoio um do outro.

De forma brilhante, o filme mostra que as fragilidades inerentes à nossa humanidade são superadas por uma força antagônica e complementar que todos carregamos, que é a nossa vontade. É a vontade, como energia ativa, que transforma nossas vidas e nos redime da miséria humana.

O título do filme é uma alusão à confiança que fundamenta nossos relacionamentos humanos. A casa, neste caso, é a representação do lar, da família, que no filme é constituída por pai e filho. As chaves que abrem a casa – a confiança e o apoio mútuo - são as chaves que dão acesso ao relacionamento dos dois como parte de um mesmo clã e que garantem a ambos a sensação de pertencimento. E como em qualquer relacionamento, inclusive e talvez especialmente no relacionamento familiar, a confiança não é uma garantia “a priori”, mas sim algo a ser construído, uma conquista derivada da convivência e da atitude cotidiana.

As atuações de Kim Rossi Stuart (Gianni) e de Charlotte Rampling (Nicole) são excelentes. Mas é Andrea Rossi que brilha e emociona o espectador ao interpretar o filho Paolo. Fiquei bastante intrigado com o realismo de sua atuação e, pesquisando na internet, descobri que é portador de deficiência na vida real. Este filme é uma obra de arte.

as chaves de casa imagem chamada.jpg As Chaves de Casa é um filme italiano de 2004, dirigido por Gianni Amelio.


Claudio Lasas

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