in quietude

Uma pausa para pensar nas coisas do mundo

Claudio Lasas

Três coisas que nunca recuso: filosofia, yoga e um cafezinho.

Mídias Digitais: Amar ou Odiar?

As mídias digitais vieram para ficar. Livros, jornais e tantas outras publicações em papel estão dando lugar à rede. Vou sentir saudade do papel, mas a internet tem grandes coisas a nos oferecer. O que ela nos promete é um mundo mais justo, a partir de uma sociedade mais consciente e engajada.


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Um dos meus programas favoritos é ir a livrarias. Gosto de me demorar horas em meio às várias prateleiras, passeando entre os livros, lendo títulos, detendo-me em trechos de obras famosas, folheando revistas, ouvindo pedaços de músicas ou simplesmente tomando um café enquanto me entretenho com um ou outro volume pelo qual sinto curiosidade. E como é prazeroso experimentar a textura do papel, perceber os tons pasteis das páginas e sentir o peso dos livros, quase como se me estivesse a indicar que se trata de uma obra de grande importância. Mas sempre que estou numa livraria sinto uma certa angústia, uma nostalgia antecipada, porque sei que infelizmente os livros impressos estão com seus dias contados. Me dá até vontade de comprar uma ou duas obras que sei que dificilmente terei tempo de ler, só mesmo para ajudar no lucro das livrarias e dos autores, como uma espécie de incentivo desesperado para que continuem publicando em papel, retardando assim quem sabe o doloroso processo de transição para a mídia digital. Acho estranho e frio o contato com a tela do telefone ou do computador para a leitura, sou de outra época, mas fazer o quê? No fundo sei que não tem jeito, mudanças como essa são inevitáveis e tenho que me adequar aos tempos e às tendências. Notícias recentes dão conta de que as pessoas já leem mais notícias numa certa mídia digital do que em jornal impresso. Eu mesmo já cancelei minha assinatura de jornal impresso há muitos anos, preocupado que estava com o impacto ambiental de tanto papel que, após uma hora de leitura, era jogado ao lixo. Mas como sinto falta desse tempo em que, entre uma xícara e outra do meu café da manhã, devorava as notícias, sorvendo informações como uma esponja, interessando-me por tudo o que o mundo podia me oferecer.

jornal.jpg As pessoas já leem mais notícias através de mídias digitais do que pelo jornal impresso

Além da frieza da tela, há um problema com a mídia digital que custa a ser superado e, muitas vezes, nem mesmo é percebido: é que nem sempre podemos confiar no que lemos. Há muito pouco controle sobre o que se publica, raramente há um revisor ou editor para checar o conteúdo. Sempre que leio uma frase supostamente de alguém famoso, me pergunto se é realmente desse autor. Fico imaginando que se Einstein tivesse sido enterrado, já teria se revirado inúmeras vezes em seu túmulo, dada a quantidade de frases um tanto quanto ridículas publicadas em seu nome. Isso sem falar na discrepância entre o discurso e a prática dos internautas. A mídia digital aceita tudo, por isso nunca se viu tanta gente "feliz", como se estivesse num comercial de margarina, mas vivendo (ou sobrevivendo) à base de antidepressivos na vida real. Há um sem número de pessoas que diariamente publicam frases lindas de Buda, Gandhi, Jesus e tantos outros grandes homens e mulheres, mas que no seio de suas próprias famílias têm dificuldade de dizer "eu te amo" aos seus pais, irmãos e filhos, ou ainda de agraciar os funcionários do prédio em que moram ou trabalham com um sincero e sorridente "bom dia". A mídia digital é o universo das aparências, o Matrix do Século XXI, um mundo em que o ter e o parecer são mais importantes que o ser e o fazer.

midia digital 2.jpg A mídia digital é o Matrix do Século XXI

As mídias digitais são o espaço propício ao engajamento falacioso. Todo mundo é expert em política, economia, ciências, e a rede é sobrecarregada com opiniões fáceis e sem compromisso, mas por isso mesmo perigosas. O problema é que em geral as pessoas não sabem tanto quanto querem acreditar e por isso mesmo tendem a ter opiniões bastante radicais sobre os diversos assuntos. Nas eleições do Brasil do ano passado, por exemplo, o que se viu foi uma guerra de polaridades e radicalismos como nunca antes havia se visto, com amigos se indispondo uns contra os outros e disputando cada um sua ferrenha posição, como se o mundo dependesse da unânime aceitação de suas posições radicais. Foi um dos momentos socialmente mais tensos da história recente do país, mesmo porque essa ruptura é justamente o oposto daquilo que precisamos, enquanto sociedade.

Mas, como tudo na vida, há sempre o lado bom da história. E no caso das mídias digitais, o lado bom é que tudo isso faz parte de um processo de aprendizado e amadurecimento. Democracia e engajamento se conquistam com a própria experimentação e provavelmente esse espaço democrático que é a internet está ajudando a sociedade a amadurecer, a formar sua própria identidade enquanto nação. Isso é bom, aliás, isso é ótimo. O país e também o mundo precisam urgentemente de pessoas que participem da realidade e contribuam com as questões prementes de meio-ambiente, ética, ciência e tantas outras. Essa fluidez seria impensável no mundo das publicações em papel. Oxalá tenhamos em muito pouco tempo pessoas menos preocupadas com as aparências e mais interessadas no legado que estamos deixando para as futuras gerações, pessoas com menos discurso e mais ação (ou ao menos com discurso alinhado à ação), pessoas com menos radicalismos e mais entendimento. Assim, deixaremos de lado o "eu sei sozinho" em prol do "estamos aprendendo juntos".

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Claudio Lasas

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