in quietude

Uma pausa para pensar nas coisas do mundo

Claudio Lasas

Três coisas que nunca recuso: filosofia, yoga e um cafezinho.

O paradoxo da educação

Os filósofos da Teoria Crítica (também conhecida como Escola de Frankfurt) defendem que o capitalismo contemporâneo controla todas as esferas da vida, entre as quais a mídia, a religião, a cultura e a própria educação. Tudo é contaminado por uma ideologia que nos faz impregnados da forma de pensar do capital.


Entramos muito cedo no sistema educacional e por isso não percebemos seu paradoxo: quanto mais aprendemos, menos sabemos. A escola que educa e edifica é a mesma que entorpece e aliena. Quanto mais conteúdo aceitamos, mais presos ficamos num modo de pensar que nos anula como seres humanos.

Confuso isso? Eu explico. A educação, como não poderia deixar de ser, estimula nosso intelecto, treina nosso cérebro com operações de lógica, memória e raciocínio. Até aí, tudo certo. O problema é que a grade curricular se concentra em preparar-nos para o mercado de trabalho. O objetivo por trás de tudo (ou quase tudo) o que nos ensinam é sempre o da eficiência, da maximização de resultados, da utilidade. Nos formamos sabendo muito bem como aumentar vendas, como incrementar a margem de contribuição dos produtos e como fazer para tornar mais curta a vida útil das mercadorias. E o problema é justamente esse: somos a tal ponto impregnados por esse modo de pensar, que o usamos como parâmetro para as decisões de nossas vidas. A eficiência passa a ser também o nosso objetivo pessoal e nosso mundo gira em torno de metas: quantos livros lemos por ano, quantas calorias comemos por dia, quão organizada é nossa agenda etc e assim só damos importância às coisas e pessoas enquanto nos possam ser úteis.

As questões realmente fundamentais ficam relegadas a segundo plano: quem somos? qual o objetivo de nossa vida? qual o segredo da felicidade? Aliás, troquem essas perguntas por outras ainda mais intrigantes: por que muitas pessoas passam a vida sem saber quem são? por que vivem uma vida sem objetivo (ou pelo menos sem objetivos que não sejam os profissionais)? e por que aceitam resignadas um sistema que as distancia da felicidade?

A educação de hoje nos adestra e domestica. Felicidade, bem estar, saúde emocional, nada disso tem sido ensinado. A escola, essa escola, nos afasta de nós mesmos, daquilo que deveria ser fundamental para cada um de nós e em vez disso prende-nos à lógica de um sistema que nada tem de humano. Conhecemos muito de muitas coisas, mas pouco de nós mesmos e achamos tudo isso normal. O resultado é que a depressão vem se afirmando como a doença do século. Pessoas trocam o viver pelo sobreviver, sem se importarem, como se estivessem sob efeito anestésico.

Há poucas semanas, li no jornal que o Japão quer eliminar a Filosofia do currículo escolar. No Brasil, volta e meia o governo discute a continuidade ou não de disciplinas de humanas (ou humanizantes), em prol de uma educação mais "forte". Forte para quem? Se nada for feito, chegaremos ao fim da vida da mesma forma que as mercadorias que estamos ajudando a produzir: obsoletos, sem utilidade, descartáveis. educacao reificante.jpg A educação reifica o homem, ao mesmo tempo que desenvolve seu intelecto


Claudio Lasas

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