in quietude

Uma pausa para pensar nas coisas do mundo

Claudio Lasas

Três coisas que nunca recuso: filosofia, yoga e um cafezinho.

Restituindo a Dama Dourada

A Dama Dourada é uma surpresa agradável. Despretensioso, o filme causa um forte impacto no espectador, porque trabalhando no terreno da emoção, nos faz pensar sobre as dívidas que as sociedades contemporâneas têm com as vítimas de injustiças cometidas no passado.


a dama dourada.jpg Helen Mirren, em A Dama Dourada

Surpresa boa é quando você começa a assistir a um filme sem esperar muito e acaba adorando. Confesso que a sinopse e o título não me apeteceram, mas um filme avaliado com cinco estrelas e com Helen Mirren, Ryan Reynolds e Daniel Brühl no elenco não poderia ser ruim, por isso resolvi dar uma chance e bingo! Os 109 minutos de "A Dama Dourada" valeram demais a pena.

Fã de Julie Andrews desde criança, não me lembro de quantas vezes assisti a "A Noviça Rebelde" e, apesar da repetição, só agora me choquei diante da constatação de que é um filme que, apesar de baseado em fatos reais, tem uma visão exageradamente romântica em relação ao holocausto. No outro extremo, refleti sobre o luto preto e branco com que A Lista de Schindler tentou mostrar, quase em formato de documentário, os horrores cometidos pelos criminosos nazistas. O que me surpreendeu, positivamente é claro, em A Dama Dourada é justamente sua recusa em assumir qualquer um desses dois extremos. O filme não tem cenas violentas, nada de tiros, não mostra campos de concentração ou gente sendo morta, mas nem por isso deixa de cumprir uma importante tarefa, a de inspirar no espectador revolta e repulsa por tudo aquilo que aconteceu historicamente e que não é mostrado na obra. O filme age no terreno da emoção e portanto nos transporta para o lugar da vítima. Trabalhando na chave da empatia, nos faz entender como o medo e a desesperança estiveram presentes na Segunda Guerra.

O mais surpreendente e inédito em relação a outros filmes a que assisti sobre o holocausto é que, com maestria, me fez pensar sobre o que aconteceu depois, sobre o pós fato, sobre o saldo, sobre o que restou nas vidas de vítimas e famílias de vítimas decepadas pelo nazismo. Uma coisa é a bestialidade desse regime que tomou grande parte da Europa da Segunda Guerra, mas outra coisa totalmente diferente, e sobre a qual pouco se discute, é a injustiça do esquecimento e da conivência. É um filme que fala sobre restituir o que foi tirado e, num outro sentido, sobre restaurar o que foi destruído. Afinal, o que fizeram os governos que vieram depois da Guerra? A dívida contraída por Hitler foi paga (se é que se pode pagar uma dívida como essa) ou continua pendente?

TheSoundOfMusic.jpg A Noviça Rebelde, uma visão romântica sobre o holocausto

O filme faz pensar, faz pensar muito. E a cada pensamento surge uma revolta, uma repulsa que nós, como espectadores, experimentamos acompanhando a luta de Maria Altmann. No meu caso, revolta pelo retrato romântico com que A Noviça Rebelde trata o nazismo. Revolta pelo silêncio conivente e conveniente de países que até hoje mantêm como patrimônio público coisas que foram subtraídas de pessoas e famílias inocentes. Revolta pelas injustiças sociais não corrigidas. Revolta pelo racismo, pelo preconceito e pelo silêncio.

A injustiça em relação aos judeus da Segunda Guerra é óbvia, mas além disso o filme me fez também refletir muito sobre outras situações que, mesmo não tendo relação direta com o holocausto, possuem um paralelo e que vêm sendo objeto de grandes discussões nos últimos tempos. Afinal, quando se fala de reparação, quanto se deve aos descendentes de escravos? Aos países pobres que foram colonizados no passado? Às mulheres e gays que sofreram ou continuam sofrendo discriminação no mercado de trabalho? Nas discussões acaloradas sobre políticas afirmativas, como por exemplo a adoção de cotas nas universidades e cargos públicos, há sempre argumentos contra ou a favor, mas as perguntas que importam são sempre as mesmas: como restituir o que foi um dia tirado? como reparar o dano causado a uma pessoa, grupo ou seus descendentes? Afinal, dívidas expiram e, portanto, a injustiça cometida há cem, duzentos anos, está perdoada?

Ao término do filme, mais uma grata surpresa: o filme baseia-se numa história real. Mal terminaram os créditos e lá estava eu na internet, pesquisando a história, vendo as fotos das pessoas como eram ou são na realidade e sentindo por eles uma incrível empatia.


Claudio Lasas

Três coisas que nunca recuso: filosofia, yoga e um cafezinho..
Saiba como escrever na obvious.

deixe o seu comentário

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do autor do artigo sobre as matérias em questão.

comments powered by Disqus
version 1/s/cinema// @obvious, @obvioushp //Claudio Lasas