Nicolle Oliveira

Curiosa por natureza, faz de cada resposta uma nova pergunta. Dona de uma mente cronicamente inquieta, ainda não descobriu o que veio primeiro: sua inquietação, a inspiração ou o amor pelas palavras. [email protected]

LATITUDES: A história de duas pessoas que se esbarraram pelo mundo

É preferível voltar atrás a viver assombrado pelo arrependimento. Se a paixão continua ali, após tanto tempo, por que não tentar? Costumamos vestir uma armadura, por medo de sofrer. Mas para tentar ficar com quem gostamos temos que nos despir dela e sermos corajosos o suficiente para admitir nossos sentimentos.


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Latitudes é uma produção nacional e um tanto quanto intimista. Um filme/série rodado em diversos países, transformando nossas histórias de amor em arte. É para os amantes de cinema e de séries também, uma vez que a história pode ser assistida em 8 capítulos no youtube ou na versão cinematográfica. Dirigido por Felipe Braga, Latitudes, tem um quê de documentário, misturado com ficção. Uma obra de arte, produzida por brasileiros talentosos.

Olívia (Alice Braga) e José (Daniel Oliveira), ambos bem-sucedidos, vivem mais em aeroportos e quartos de hotéis que em suas próprias casas. Um dia, acabam se esbarrando, nas ruas de Paris, e aí começa uma história cheia de vírgulas, aspas, pausas, finais e recomeços.

Ela do tipo mulher segura, mas despida da soberba. Sempre à frente de tudo e todos. Escolhe o que vai fazer e principalmente quando fazer. Com quem sair, quando as coisas começam e quando terminam. Sempre atrasada para o próximo compromisso. Sempre dizendo que precisa ir embora. Para alguém tão acostumada a estar no controle, foi compreensível ter ficado tão desconcertada ao se deparar com ele.

José, um cara bonito, interessante e inteligente. Mas o que atraiu a atenção dela foi algo além do físico. Ambos gostam de jogar, flertar e vivem no dilema de dominar e serem dominados. Logo ela percebeu que ele não era como os outros caras, que o jogo dela não prevalecia mais e finalmente tinha encontrado um jogador à altura.

O que começou com um encontro casual, se transformou em um mundo à parte, uma realidade paralela. Uma bolha onde só os dois existiam. Mais cedo ou mais tarde eles se reencontrariam em alguma cidade do mundo, em algum quarto de hotel.

E só quem já passou por isso pode imaginar como é complicado. Estar com alguém, mas não ao nosso tempo, ficando à mercê da coincidência. No decorrer do tempo surge uma linha tênue entre coincidência e desejo. Eu estou aqui por que preciso ou por que quero?

Um relacionamento baseado na expectativa do dia do encontro chegar e quando finalmente acontecia - passava rápido - logo ela tinha que ir para o aeroporto, trabalhar, seguir sua vida, assim como ele. Ambos possuíam suas vidas "lá fora".

Assim como no filme, eis que chega o dia em que temos de admitir que aquilo deixou de ser aleatório. Que o tempo que gastamos planejando o próximo encontro dura mais que o próprio estar com a outra pessoa. O que desperta o sentimento que aqueles encontros perdidos no espaço-tempo já não são o suficiente. Nos faz querer ter mais. Nos faz querer pedir algo que não podemos.

Com o decorrer do tempo, a bolha projetada por José e Olívia foi ficando mais frágil. Correndo o risco de realidade e fantasia se misturarem. Os dois tinham suas vidas bagunçadas, com relacionamentos complicados e se concentravam no trabalho para não pensarem em como as coisas estavam agitadas. Mas naqueles encontros, onde era só os dois, tudo era bom. Até a frustração chegar por não saberem quando se encontrariam novamente e muito menos onde.

Logo, eles queriam mais, e tropeçavam na realidade de suas vidas. Ela sempre tendo que partir, ele também, cada um à sua maneira. Às vezes se afastavam, mas a saudade sempre batia à porta.

O mais bonito nessa história é que Olívia não é Olívia e João não é só João. Ela é eu e é você também. Somos João, somos Olívia. O que acontece com eles é o mesmo que acontece com a gente.

Diante de desencontros e palavras que não podem ser ditas, devido à ausência do relacionamento, é fácil dizer: tchau, eu prefiro me afastar de você, não posso te cobrar algo que não temos. A racionalidade - ou o medo - nos diz que é melhor deixar para trás. Na esperança dos sentimentos se esvaírem com os dias, tão ocasionalmente como chegaram.

Mas na banda da paixão não é assim que a música toca. Além de sabermos que tal atitude não terá efeito sobre nossos sentimentos, ainda teremos que nos deparar com a realidade de termos nos afastado de alguém que gostamos.

Nessas horas alguém sempre tem que ceder, é preferível voltar atrás a viver assombrado pelo arrependimento. Se a paixão continua ali após tanto tempo, por que não tentar mais uma vez? Costumamos vestir uma armadura, por medo de sofrer. Mas para tentar ficar com quem gostamos temos que nos despir dela, ser corajosos o suficiente para admitir nossos sentimentos. Dizer: estou com saudade. eu tentei te esquecer, mas não deu. Vamos nos ver?

A paixão surge, do que nos faz perder a razão, nos tira do controle, provoca em em nós um sentimento diferente e nos faz fazer coisas inimagináveis. A história de Olívia e José é sobre nós, que por um acaso nos deparamos com alguém, que nos desconcertou. E quando percebemos que valia a pena, tiramos a armadura do medo para encarar uma paixão.


Nicolle Oliveira

Curiosa por natureza, faz de cada resposta uma nova pergunta. Dona de uma mente cronicamente inquieta, ainda não descobriu o que veio primeiro: sua inquietação, a inspiração ou o amor pelas palavras. [email protected]
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