Nicolle Oliveira

Curiosa por natureza, faz de cada resposta uma nova pergunta. Dona de uma mente cronicamente inquieta, ainda não descobriu o que veio primeiro: sua inquietação, a inspiração ou o amor pelas palavras. [email protected]

A história da jovem que ficou 7 meses sem celular para compreender como nos relacionamos com a tecnologia

Entre o discurso de que a tecnologia está nos afastando de quem está perto e nos aproximando de quem está longe. Ao perder meu smartphone, vi uma oportunidade de compreender como realmente nos relacionamos com a tecnologia, quais os efeitos sobre nossos relacionamentos e como seria não ter o mundo na palma das mãos, vinte e quatro horas por dia.


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No decorrer dos 7 meses que fiquei sem celular, reaprendi muitas coisas e mudei alguns hábitos. Descobri novas maneiras de me relacionar com as pessoas e outras formas de compartilhar minhas ideias.

No início, foi similar a aprender um novo idioma, cultura, ou até mesmo como uma desintoxicação. Eu tinha que fazer as mesmas coisas, mas de forma diferente. Não tinha mais aplicativo para transações bancárias, mensagens instantâneas, a soneca do despertador, câmera HD... E mesmo tendo a possibilidade de utilizar o computador, o que atenuaria os efeitos da ausência do celular, reduzi consideravelmente o acesso à internet.

Menos mapas, mais comunicação! Na minha primeira viagem sem GPS, reaprendi algo bem simples: pedir ajuda aos estranhos. É claro que antes eu pedia informações, mas sobre coisas bem simples. Eu sempre fui muito independente, e o fato de depender das pessoas para descobrir como faria um trajeto longo, me deixava bem apreensiva. Será que aquela pessoa estaria disposta a ajudar? Será que eu entenderia o caminho? Será que a informação estaria correta? Não demorou muito para me tornar mais confiante, e perder o receio acerca de como as pessoas me tratariam.

Cadê a foto pra rede social? Quando presenciamos uma imagem bonita, ou quando estamos com pessoas especiais, nada mais comum que tirarmos uma foto para eternizar o momento... e postar nas redes sociais, é claro! Foi necessário eu observar imagens muito bonitas, e não poder registrá-las, para perceber que eu passava tanto tempo procurando o ângulo perfeito, que contemplava cenas incríveis através da tela do celular. Aprendi a vivenciar os momentos pelo simples prazer de estar ali, sem o compromisso de captar uma imagem incrível. Passei a admirar cada detalhe, até ter a certeza de que se eu fechasse os olhos naquele instante, ou daqui muitos anos, ainda poderia visualizar aquele momento.

Quantos livros você lê por ano? Sabe aquele tempinho no transporte público, na sala de espera ou os minutinhos que sobram no final da aula? Então, eles são milagrosos! Geralmente, nessas horas eu ficava observando o que acontecia nas redes sociais. Sem nunca ter me dado conta de quanto tempo isso significava ao final de um dia. Logo que comecei a dedicar esse tempinho para leitura, percebi que antes levava semanas para ler um livro, e agora consigo terminar em uma semana ou menos.

Adeus aos amigos? Muita gente acha que ficar sem mensagens instantâneas é o fim. De fato dificulta a vida, mas não foi o fim do mundo. No período de 7 meses, só fiquei um mês sem facebook, por isso, não tive muitos problemas. A maior complicação era em função da minha demora em responder as mensagens. Eu não ficava conectada o tempo todo, como acontece quando estamos com o celular. Às vezes passavas alguns dias sem entrar na rede social, o que gerava reclamações. Teve até quem desistiu literalmente de conversar comigo. No período sem facebook, conversei com as pessoas por email, tinha gente que mandava mensagem para minha mãe ou irmã.

A vida sem notificações Quem nunca acordou no meio da noite e deu uma olhada nas notificações? Ou teve dificuldade para se concentrar porque o celular não parava de tocar, vibrar... O simples fato do celular emitir qualquer som, já gera uma certa ansiedade. Então, é quase indescritível a sensação de liberdade, satisfação e tranquilidade, que desfrutei. Perder esse sentimento de urgência ou de que o mundo acabaria se a bateria descarregasse, realmente foi uma das mudanças mais relevantes. É claro que você deve preocupar-se com coisas que demandam urgência, mas percebi que inconscientemente eu priorizava as coisas erradas, em determinados momentos.

Apesar de ter comprado outro smartphone, e reconhecendo que de fato é um aparelho necessário, a maneira como o utilizo agora é bem diferente. É comum esquecê-lo em casa ou ficar muito tempo sem bateria. Eu não passo o dia todo com ele na mão e nem todo momento legal rende uma foto para as redes sociais. Às vezes ainda demoro para responder minhas mensagens e também deixei de ser dependente de tomadas.

Cheguei à conclusão de que julgar a tecnologia como algo que nos afasta das pessoas que estão perto, é o mesmo que admitir que não temos autocontrole sobre nós mesmos. Ela está à disposição, mas para ser usada com bom senso. Devemos tomar cuidado para não atribuir valores errados a esse tipo de recurso. Uma das principais lições é que a maneira como nos relacionamos socialmente, nossa satisfação e até mesmo nossa autoestima, não podem ser dependentes da tecnologia que os smartphones nos oferecem.

Versão original disponível em: Desconecte Magazine


Nicolle Oliveira

Curiosa por natureza, faz de cada resposta uma nova pergunta. Dona de uma mente cronicamente inquieta, ainda não descobriu o que veio primeiro: sua inquietação, a inspiração ou o amor pelas palavras. [email protected]
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