incomuns

InCompetentes. InCompatíveis. InComparáveis.

A.J.Poettos

Incompetente (em várias coisas).
Incompatível (quase sempre).
Incomparável (por que não?).

Entre fracassos, palavras e uma bengala

Fracassamos como amantes, como leitores ou como escritores: e o que, do fracasso, aprendemos? Que história podemos contar das bengalas que temos nas mãos, apoiando nossos medos? Entre verões, é no inverno da alma que os balões trafegam nas alturas.
“Quando os meus pés entraram no caminho de terra, que permanecia um tanto húmida da noite de temporal, a bengala era já uma memória de outra vida”.


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Um escritor coxo e hipocondríaco acaba numa mansão na costa italiana. O dono da mansão, Don Metzger é cineasta e apaixonado por balões de ar quente. E crimes. Muitos crimes. Quem nunca cometeu algum?

“Um homem novo com uma bengala podia dar-se ao luxo de desprezar o mundo”, é o narrador informando a sua indignação com a literatura: o seu mundo. O leitor acompanha esse narrador com sua bengala, metáfora concretizada de todas as suas inseguranças, que busca a paixão pela escrita.

“ ‘Julgas por um momento que algum dos idiotas naquela sala compreende o que é existir dessa maneira, com uma exposição tão evidente de um fracasso?’ ‘Nunca pensei na minha perna como um fracasso.’ ‘E, no entanto, é. A tua perna é o teu fracasso; é a prova da tua finitude. E está aí para toda a gente ver, para alguns gozarem com ela e para outros sentirem pena’”.

Quanto dos nossos fracassos nos constituem? Quanto dos nossos erros, faltas ou incompetências escrevem nossos romances? A perna, a bengala, o ciúme, o orgulho: nós, leitores, mancamos junto, e ouvimos a pergunta: ao que você, caro leitor, se agarra para não levantar voo?

Em “O bom inverno”, João Tordo nos coloca entre um grupo bastante heterogêneo: artistas presos numa mansão italiana, onde crimes se sucedem, a começar pelo próprio dono da casa que é encontrado morto, e seu cadáver, oculto nos ares, corpo alçado por um balão.

Entre confissões, a leitura acompanha a própria estrutura ficcional, as costuras da história e os questionamentos do autor-narrador que em determinados momentos se confunde: um personagem que é narrador que se percebe escritor que é autor: como se esse escritor coxo fechasse o círculo perfeito, de um crime (im)perfeito.

Um a um os personagens vão sucumbindo à pena, entre crimes de amor e de palavras. O que à primeira vista parece um balão desgovernado entre ventos e tempestades, mostra ao leitor que é a própria escrita o que está sendo ali (re)contado.

“O Bom Inverno” confunde estações: é o tempo e o espaço entrelaçando-se num thriller sobre, quem sabe, a morte da própria palavra.

E uma das epígrafes do livro poderia bem ser um epitáfio: “Adoremos o Inverno, pois é a Primavera dos gênios” (Pietro Aretino)

João Tordo, nasceu em Lisboa (1975). Vencedor e finalista de importantes prêmios literários portugueses.

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A.J.Poettos

Incompetente (em várias coisas). Incompatível (quase sempre). Incomparável (por que não?). .
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