Steff Oliveira

Socióloga de formação, cursando especialização em projetos sociais e políticas públicas e Astróloga nas horas vagas. Apaixonada por [email protected], corujas, sorvete, o infinito, música e [email protected]

A Sociedade Contra o Estado: reflexões acerca do poder político

Alternativas para (re)pensar nas formas do poder político e social.


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No livro A Sociedade Contra o Estado, Pierre Clastres apresenta uma alternativa para se pensar sobre o poder político. A “revolução copernicana”, nome dado a essa proposta, consiste no reconhecimento de que o modo ocidental de poder político não está presente em todas as sociedades da mesma forma, e que se pensarmos o poder político a partir de um modelo ocidental pressupondo-o como único e universal estaremos contribuindo com eurocentrismo que desqualifica as demais sociedades, culturas e tradições.

Negar a existência de outras maneiras de poder político por que ele não se apresenta da forma como o conhecemos, ou seja, como um Estado (democrático de preferência), revela que estamos habituados a caracterizar sociedades e culturas diferentes pelo que elas não possuem em comparação com a nossa e por isso mesmo tendemos a incorrer no erro de considera-las arcaicas.

Durante o livro, Clastres chega a concluir que essas sociedades não são sem Estado, mas sim contra o Estado e como exemplo disso, apresenta mitos, modos de agir e noções do pensamento ameríndio que revelam um esforço consciente para que o poder político não se centralize ao ponto de assumir a forma de Estado.

Para Clastres, o importante é percebermos a necessidade de mudar nosso modo de análise e pensamento para não criar a impressão equivocada de que essas sociedades, com seus modos de ser e viver, são arcaicas e sem política.

Para complementar essa discussão, o antropólogo brasileiro Renato Sztutman introduziu outro ponto, trata-se da ação política ameríndia. Sztutman descreve que o papel dos indivíduos na sociedade deve ser pensado como maneira de entender a importância da organização estabelecida, no caso de inúmeros povos, sem um Estado que dite quem fará o que, quem manda, quem obedece e etc.. Para elucidar essa noção Sztutman utiliza, por exemplo, as figuras do pajé e do chefe nas sociedades indígenas.

Essa ação política de que Sztutman nos fala, só é entendida pela noção de construção da pessoa, a magnificação de um indivíduo se dá pela sociedade, ou seja, o indivíduo não tem poder político necessário para exercer a coerção pela força, uma vez que o poder político que lhe é dado não é fixo porque depende de sua magnificação. Algo que só acontecerá caso a sociedade entenda que aquele chefe, pajé e etc. são necessários dentro da tribo.

A reflexão que Sztutman propõe é pensar a ação política ameríndia sabendo que ela poderá se constituir de várias maneiras, desde pessoas e grupos, até mecanismos que impeçam a estabilidade, porque não se trata de algo fixo. Existe uma grande preocupação para que a magnificação não congele e se torne algo parecido com o poder político estatal estruturado.

Assim, podemos concluir que o modelo de poder político europeu adotado pelas sociedades ditas civilizadas onde o Estado é apenas mais um modelo entre os diversos que existem no mundo e por isso mesmo, não devemos toma-lo como universal. Essa percepção é fundamental para que ao reconhecer as diversidades tenhamos uma postura pautada na valorização das sociedades, culturas e pessoas e não na inferiorização como vem acontecendo a séculos, mas isso é só o começo...

REFERÊNCIAS: CLASTRES, Pierre. Copérnico e os selvagens in A sociedade contra o Estado. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.

STUTZMAN, Renato. Caraibas e Morubixabas: a ação política ameríndia e seus personagens. [email protected] – Revista dos alunos de antropologia dos alunos do PPGAS da UFSCAR, n° 1, volume 1, 2009. Disponível em https://sites.google.com/site/raufscar/


Steff Oliveira

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