Steff Oliveira

Socióloga de formação, cursando especialização em projetos sociais e políticas públicas e Astróloga nas horas vagas. Apaixonada por [email protected], corujas, sorvete, o infinito, música e [email protected]

Dos Desafios de Não Ser Uma Pessoa Líquida

Em uma sociedade influenciada pelo amor líquido é desafiador ser uma pessoa que busca uma interação mais profunda e são algumas observações sobre esses desafios que desejo compartilhar.


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Este texto não é uma reflexão sobre a obra do sociólogo polonês Zygm Zygmunt Bauman, embora tenha me inspirado com sua teoria. Aos leitores que buscam esse tipo de análise, aconselho o texto de uma colega do blog. Também não se trata de discutir o que é certo e errado, dar conselhos, criticar a modernidade ou defender o romance, busco apenas compartilhar algumas experiências do ponto de vista de quem não se encaixa no que parece ser o atual padrão vigente nos relacionamentos.

Antes de prosseguir considero importante definir dois conceitos fundamentais de Bauman que me ajudaram a pensar nessas questões, assim todos os leitores poderão acompanhar a proposta sem nenhum tipo de prejuízo: Modernidade líquida: estado atual da sociedade em que os avanços tecnológicos influenciam o ser humano em suas relações de um modo geral; Amor líquido: flexibilização das relações estabelecidas na lógica da sociedade atual (modernidade líquida) que altera a noção clássica de amor tido como durável, eterno, sólido, para uma noção de descartável, momentâneo, líquido;

Em poucos anos a modernidade líquida passou a fazer parte da vida cotidiana das pessoas. A tecnologia proveniente dessa situação é muito satisfatória, principalmente levando em consideração a possibilidade de contato com pessoas de todo o mundo, por outro lado, dentro da lógica da modernidade líquida as relações amorosas estão se tornando cada vez mais descartáveis. Sabemos exatamente que meios temos de (literalmente) acessar o amor líquido através de sites, aplicativos e etc. Em termos livres e gerais, considero relacionamentos líquidos aqueles que terminam antes mesmo de começar, aqueles em que se opta por trocar, deletar, excluir, bloquear e etc.

Para quem se adaptou a esse cenário imagino que tudo esteja caminhando como o esperado e não há nenhum problema nisso, mas como ficam as pessoas que não tem afinidade com o amor líquido ou interesse pelo tipo de relacionamento que ele estabelece?

Se você faz parte do grupo de pessoas que não são líquidas ou está em busca de uma interação mais profunda, provavelmente tem passado por situações que prefiro encarar como desafios, e são algumas observações sobre esses desafios que desejo compartilhar.

Ao longo do tempo identifiquei duas categorias para classificar esses desafios: a primeira diz respeito a questões mais internas ou subjetivas que abrangem os mais variados sentimentos, já os desafios objetivos correspondem às ações práticas.

Com relação os desafios internos, sabemos que os sentimentos variam de pessoa para pessoa, tanto em intensidade quanto em consciência e por isso mesmo as questões subjetivas são mais complicadas de explicar, mas me parece que a ansiedade é o sentimento mais recorrente, já que a pessoa não líquida inevitavelmente anseia por algo a mais. Além disso, é por meio da ansiedade que surgem outros sentimentos como medo, insegurança e Cia.

Para superar os desafios subjetivos, devemos encarar esses e outros sentimentos e pensamentos de frente, existem muitas formas de fazer isso, meditação, terapia, e etc... O importante é identificar o que realmente queremos e se conhecer melhor.

Na modernidade líquida tornou-se mais difícil investir tempo em conhecer realmente uma nova pessoa. É geralmente nesse contexto que os desafios objetivos estão inseridos, isso porque uma pessoa que não está habituada a viver amores líquidos não saberá aonde ir, como agir e o que dizer, e se algum dos dois for tímido o tempo que levará para se soltar se torna mais um complicador. Por isso é fundamental trabalhar as questões subjetivas antes, elas serão de grande ajuda ao lhe dar com as questões objetivas relativas às ações práticas que tomamos (ou não).

Gosto de encarar os desafios objetivos como uma forma de praticar a velha máxima do “seja você mesmo”, por mais clichê que essa afirmação possa soar, acredito que quando os desafios subjetivos são superados é possível relaxar e deixar tudo acontecer, assim as ações práticas não serão forçadas nem direcionadas a alguma finalidade específica. O famoso “deixar rolar” nesse caso não é uma nova via para o amor líquido, pelo contrário, é uma maneira de resgatar a complexidade das relações pré-modernidade líquida.

Não estou dizendo que superar esses desafios deve ser um objetivo na vida de cada um, muito menos que superá-los será a chave para a plenitude pessoal ou uma solução mágica para alcançar o tipo de relacionamento que se deseja. No máximo posso dizer, com base em experiências próprias, que identificar esses desafios será um caminho difícil, mas extremamente recompensador.


Steff Oliveira

Socióloga de formação, cursando especialização em projetos sociais e políticas públicas e Astróloga nas horas vagas. Apaixonada por [email protected], corujas, sorvete, o infinito, música e [email protected].
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