inconvencional

Tudo depende do ângulo

Michelle Cruz

Em formação na escola da vida, uma artista-arteira, e também, comunicóloga. Fazendo da sua vida uma obra-prima, falando da vida e do mundo que a influencia

O órfão

Uma parte da estória de uma vida, as palavras de um jovem órfão: "Quando se fala de salvar a vida de um bebê, evitar um aborto, muitos apoiam e defendem. E quando o tempo passa e esse bebê é um adulto desequilibrado, sugerem até a morte, é inacreditável, é injusto! "


Orfão.jpg Ilustração: Rogério Rocha - @gentilpirado

Tem coisas que eu nunca vou entender nesse mundo, nem vou conseguir aceitar. E uma delas é: como pode alguém discursar sobre algo que não tem vivência? Sem avaliar realmente os pós e contras de uma situação.

Eu cresci sem conhecer meus pais, sem ter uma base familiar. Minha família foram os meus amigos, as pessoas que me rodeavam e me faziam sentir bem. Muitas dessas pessoas nem sabem que foram meus tios, primos e avós. Era a minha forma de superar a tristeza de viver sozinho. Eu criava meu mundo e incluía as pessoas da forma que me agradava.

Eu me considero uma pessoa vencedora, mesmo com muitos motivos para dizer ao contrário. Tenho conseguido superar as tristezas e dificuldades da vida, porque eu acredito que existe uma força superior que cuida de nós, que esteve comigo durante toda a minha vida e ainda me acompanha. E me fez e faz ter coragem de não estagnar nos problemas que me causaram e me causam.

Durante o tempo que morei em orfanatos, eu era o menininho bonitinho, tímido e medroso. Quase não falava com ninguém, vivia pelos cantos, observando e esperando que alguém ou uma família gostasse de mim e me tirasse dali. E isso nunca aconteceu! Eu vi amigos irem embora felizes. Eu vi outros amigos voltarem para o orfanato mais tristes do que saíram. Em alguns momentos, nós éramos tratados como coisas, bonequinhos, como se não tivéssemos vida, nem sentimentos. Não foi fácil encarar tanto sofrimento tão novo, eu era uma criança.

Quando eu tinha por volta de oito anos, uma senhora viúva, começou a visitar o orfanato. E ela sempre brincava com a gente. Fazia bolos, dava brinquedos e nos levava para passear no parque. Ela nos tratava como filhos. Na nossa casa tinham quinze crianças, ela era atenciosa com todos. Eu tive por alguns meses o que eu não tive por boa parte da minha vida. A figura de mãe cuidadosa, amiga e atenciosa. Fico embargado só de lembrar. Todos no orfanato se apegaram a ela. E de repente, de um dia para o outro, após seis meses de convivência, essa senhora desapareceu do orfanato. Nunca mais apareceu para nos ver. Ninguém nos explicou o que aconteceu. Eu cheguei a ouvir no corredor que ela estava numa fase difícil. Ela decidiu por ser voluntária porque se sentia sozinha. E seu marido tinha falecido recentemente. E ela achou que a sua dor seria curada ajudando outras pessoas. E nos escolheu para isso! Ela escolheu crianças para resolver os problemas dela. Que covardia! A dor dela foi curada e a minha e dos outros garotos só aumentou. Eu fiquei sem chão por alguns meses. Com o tempo fui me esquecendo dela, mas não do sentimento que era conhecer alguém. Ela era uma senhora de aparência boa e meiga. É estranho associar maldade com aquela carinha tão doce. Enfim, é melhor não falar mais dela. Pensar nessa senhora me faz lembrar de coisas boas e ruins também.

Atualmente, o que mais me deixa indignado são as pessoas discutirem tanto sobre o assunto ABORTO! Eu passei por tantas coisas ruins que sou a favor de que as pessoas possam optar por abortar. Sou a favor da legalização do aborto. Porque ter um filho e deixa-lo em um orfanato não é dar direito à vida. É condenar uma criança, um futuro adulto ao massacre. Fico abismado com tantas pessoas puritanas que são contra o abordo. E eu queria saber, quantas delas adotam crianças? Porque é lindo falar apoiar uma causa com belos discursos, fazer trabalho social por alguns meses. Eu quero ver as pessoas manterem a linda ideologia por anos, por toda uma vida. A vida não é feita de decisões isoladas, todas as nossas decisões tem consequências. E a não legalização do aborto pode forçar o abandono de muitas crianças, sem contar o número de mulheres que morrem nas clínicas clandestinas.

Eu valorizo muito a vida, mesmo sendo fruto de um relacionamento impensado. Quando eu me casar e tiver um filho quero ser um super pai. Nunca vou dizer a minha mulher para abortar, mesmo que não seja planejado ou não tenha as melhores condições financeiras. E também, se eu tiver no meu círculo de amigos alguém que não queira ter filhos e pense em abortar, nunca vou motivar para que o faça, mas nem o condenar por querer fazer. Eu sou um milagre, eu sobrevivi aos sofrimentos. Mas, são poucas pessoas que conseguem superar de forma positiva. A maioria dos meninos que moravam comigo no orfanato estão presos ou perdidos no mundo.

Há pouco tempo atrás, eu vi um dos garotos do orfanato assaltando um casal. E do meu lado tinha um senhor que logo disse “Esse menino é uma vergonha para os pais dele, roubando, que feio! A polícia tem que prender, esse malandro tem que morrer! Raça ruim!”. E eu não me contive e respondi para o senhor, “Ele não é nada para os pais dele, ele cresceu em orfanato, ficou preso a maior parte da vida dele. E a qualquer momento pode ser preso novamente, numa penitenciária e continuar excluído da sociedade. Como se ele sozinho tivesse causado todo esse desgosto que ele vive e transmite para os outros.”

Quando se fala de salvar a vida de um bebê, evitar um aborto, muitos apoiam e defendem. E quando o tempo passa e esse bebê é um adulto desequilibrado, sugerem a morte. As vezes, o ser humano é desumano, é inacreditável, é injusto! Quando é que as pessoas vão aprender a respeitar uns aos outros?

É fácil falar de justiça, difícil é ser justo! Justamente, com o desconhecido, com as histórias que não conhecemos. Pura hipocrisia!

Eu preciso ir, esse assunto me deixa indignado, triste e me consome...


Michelle Cruz

Em formação na escola da vida, uma artista-arteira, e também, comunicóloga. Fazendo da sua vida uma obra-prima, falando da vida e do mundo que a influencia.
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