inconvencional

Tudo depende do ângulo

Michelle Cruz

Em formação na escola da vida, uma artista-arteira, e também, comunicóloga. Fazendo da sua vida uma obra-prima, falando da vida e do mundo que a influencia

O sonho de ser chefe!

O que é verdade quando não se entende a realidade? Essa é a estória de um jovem trabalhador que conseguiu realizar seu sonho de ser chefe, mas, que ainda está em busca de se tornar uma pessoa realizada.


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Na última noite tive um sonho, foi um sonho bom, trouxe paz pra minha alma. Afinal, nos últimos dias eu só tive pesadelos, passei várias noites acordado. Minha vida tem sido um inferno. Eu sempre sonhei em ser chefe de sessão, mas nunca imaginei que daria tanto trabalho essa função. Era tão fácil analisar o meu ex-chefe e dizer que ele estava agindo de forma errada.

E agora... agora eu nem sei o que dizer. Quero dizer, eu sei o que dizer, mas no fundo não quero aceitar. Eu falei muitas coisas sobre ele que eu não deveria ter falado.

Eu julguei meu ex-chefe por diversas atitudes que ele tinha diante do departamento e de repente me peguei fazendo as mesmas coisas que ele. Foi difícil assumir isso. Ainda é! Não é com qualquer um que eu consigo falar do assunto. Acredito que vou superar essa fase, um dia. É como um mantra, repito todos os dias "Eu vou superar tudo isso!" Ainda não tenho conseguido mudar minhas atitudes por completo. Ainda assim, tenho esperança de conseguir.

Antes de me tornar chefe de sessão eu era querido por todos e de repente passei a ser odiado. E eu nem tinha começado a fazer as mudanças que eu considerava boas pro departamento. E já tinha algumas pessoas me pressionando que daria tudo errado se eu tentasse implementa-las.

As pessoas me analisam 24 horas por dia. Eu me sinto como um animal na jaula. Recebo pressão dos meus superiores e dos meus subordinados.

Nos últimos dez anos, tenho me dedicado a fazer cursos motivacionais e de liderança. E a cada curso acreditava estar mais pronto pra atuar, preparado pra enfrentar tudo. E nesse momento sinto que ainda não estou preparado. É sempre muito estranho. E no momento em que tenho a oportunidade a sensação é de fracasso.

Depois de seis meses que assumi essa posição comecei a perceber que a única pessoa no lugar errado era eu! Eu tenho espírito empreendedor, sempre liderei a minha vida, sou proativo, curioso, gosto de aprender. Mas, o mais importante eu não tenho, talento para liderar pessoas. Está sendo muito difícil assumir isso.

Eu me comunico bem, mas é necessário mais do que um repertório com palavras sofisticadas, mais do que um largo sorriso pra encarar meus superiores e subordinados. Ainda não sei qual é a habilidade necessária, qual é a nomenclatura. Só sei que é preciso um talento especial para liderar pessoas, tem que entender o que é ser exemplar, entender o peso de ser exemplo diante dos seus subordinados. Os subordinados querem mais do que palavras agradáveis, eles querem uma pessoa exemplar, querem ver alguém que tenha atitude, que tenha paixão e retidão de vida.

Comecei a perceber que não sou esse tipo de pessoa que gosta de ser observado a todo tempo.

Na semana passada, devido meu temperamento, entrei num impasse com um dos colaboradores do departamento. Foi uma discussão filosófica, banal. Estávamos falando de "verdade" e "realidade". E eu certo de que o que ele falava não tinha nenhuma coerência. Afinal, acredito que cada um tem a sua realidade e a sua verdade. Que até aquele momento eu detinha o poder de dizer o que era real e o que não era.

Bom, eu fiz questão de usar o meu poder de chefe e disse que ele não sabia o que estava falando. E que tinha que me respeitar, não se discute diante de uma ordem superior. E foi com isso que sonhei essa noite. Com verdade e realidade.

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No sonho, uma luz forte veio do céu e se acendeu na minha frente. Eu estava fora da luz. E do outro lado estava o subordinado que discutiu comigo, que eu considerava sem noção. E diante da luz central apareceu a palavra "realidade" e a minha volta e em volta do subordinado girava a palavra verdade. E uma voz forte, distante, dizia: "Eu sou o Único que detenho a realidade, vocês apenas vivem com suas verdades. O consenso, o bom senso, entre vocês só será real quando houver respeito e um respeitar a verdade do outro. E entender que, muitas vezes, vocês olham para a mesma situação e entendem de formas diferentes. É que a verdade só é verdade quando se encaixa a realidade. Se vocês não enxergam um ao outro, não buscam entendimento, não enxergam a realidade. Apenas enxergam distorções. O que vivem é ilusão."

Depois disso eu acordei. Fiquei por horas deitado, pensando em tudo que havia ocorrido e sonhado. Tentando me esconder da minha consciência, me esconder de mim mesmo. Isso é doentio! Como cheguei a esse ponto? Que vergonha!

E o mais interessante que antes de assumir essa vaga minha mãe me questionou "Você tem certeza que quer assumir essa vaga?". E eu não estava certo, mas era o que todos esperavam de mim, depois de tanto tempo investido nessa carreira. Eu considerava uma obrigação ter algum retorno de tudo que eu havia estudado. E percebi que ser chefe não era meu sonho, mas foi uma ideia que me foi lançada, uma moda que contagiou, e eu resolvi me arriscar.

Com essa nova descoberta estou certo de que preciso mudar o meu caminho, mudar a minha direção. Talvez, participar de algum projeto mais colaborativo, em que eu possa assumir uma posição de destaque, mas eu não seja o centro das atenções. Eu preciso compartilhar ideias, encontrar pessoas que tenham a mesma filosofia de vida.

Deus me ilumine, porque, nos últimos tempos, andei em caminhos escuros.


Michelle Cruz

Em formação na escola da vida, uma artista-arteira, e também, comunicóloga. Fazendo da sua vida uma obra-prima, falando da vida e do mundo que a influencia.
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