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Tudo depende do ângulo

Michelle Cruz

Em formação na escola da vida, uma artista-arteira, e também, comunicóloga. Fazendo da sua vida uma obra-prima, falando da vida e do mundo que a influencia

A arte como forma de democracia

Qual é o limite entre a arte e a realidade? Será que "a vida imita a arte ou a arte imita a vida"? É diante de impasses e questionamentos da sociedade que o Teatro do Oprimido auxilia na busca de respostas aos conflitos do cotidiano.


Augusto Boal.jpg Arquivo O Globo

Passa-se os anos, passa o tempo e algumas piadinhas não saem de moda. Pode alguém revoltado ou por desabafo, cansado de ver o outro agir de forma estranha, incoerente, agindo com má fé. E para afrontar seu oponente, talvez diga: "Tira a máscara, fulano! Não estamos no carnaval. Assuma seus erros!". Ou talvez, é possível assistir pessoas discutindo numa esquina, sobre ideologia política, dizerem tantas verdades que acabam mais mentindo do que chegando a razão de algo. Quando as pessoas param pra observar a sua volta o "mundo da realidade" mais parece um palco de teatro.

A verdade, é que cada indivíduo na sociedade é protagonista da sua própria história. A oportunidade de escrever um livro da sua própria vida não é uma arte exclusiva de artistas por formação educacional ou celebridades. Todo cidadão é um artista no palco da vida, é um artista na arte de lidar com a rotina. De forma consciente ou inconsciente representa um papel na sociedade. Afinal, o ator profissional em suas apresentações se baseia nas pessoas comuns, para criar seus personagens fictícios. É como que se não tivesse um limite entre a realidade e a arte de dramatizar.

Essa ideia do teatro que aproxima o real do fictício não é um conceito novo. Pode ser visto como um método teatral que pode nos ajudar a simular o futuro, não é uma garantia de que pode se criar uma forma perfeita para se viver. Mas, sim, as pessoas podem se entender melhor e serem mais empáticos, ao invés, de serem apenas simpáticos. E as vezes, indiferentes em suas relações.

O Teatro do Oprimido, que também pode ser chamado de Teatro do Diálogo, foi desenvolvido e criado pelo dramaturgo Augusto Boal, entre a década de 70 a 80, após o seu exílio no período da ditadura militar no Brasil.

Em entrevista concedida ao Globo News, Boal disse: "O teatro não é a única maneira, mas é a maneira do cidadão se proteger e tentar inventar o futuro e não ficar esperando por ele. Não o teatro que a gente assisti, mas, sobretudo o teatro que a gente faz. Mas, não apenas o teatro que a gente faz, mas, sobretudo o teatro que a gente é. É esse teatro que nós temos dentro de nós que o Teatro do Oprimido tenta desenvolver." (Assista a entrevista completa)

Uma das atividades propostas no método teatral de Boal, dos jogos e técnicas teatrais, é o Teatro-Fórum. É quando um grupo de atores profissionais ou amadores definem um tema, que sempre é um conflito social real. E após a apresentação da cena é dada a oportunidade de alguém da platéia assumir um papel na história e sugerir uma solução. E durante toda a apresentação uma pessoa, o "Curinga" (o facilitador ou especialista sobre o Teatro do Oprimido) auxilia na entrada e saída de cada participante. Fazendo com que o público seja estimulado a buscar uma alternativa para solucionar o conflito.

É a quebra da barreira entre quem está no palco e quem está na platéia, da realidade e do imaginário, a análise do que pode ser solução e o que não pode ser. E todos tem a oportunidade de ficar no lugar do oprimido ou do opressor. E entender as diferentes visões.

O método criado por Boal foi difundido pelo mundo tudo, diversos países utilizam seu método como forma de diálogo social, em busca da democratização. A Unesco reconheceu o trabalho do dramaturgo o nomeando embaixador mundial do teatro. E até o jornal britânico The Guardian reconheceu o valor do brasileiro, publicando: "Augusto Boal reinventou o teatro político e é uma figura internacional tão importante quanto Brecht ou Stanislawski."

Afinal, nesse grande palco que é o Brasil, o que falta ao povo brasileiro pra viver em uma real democracia? Falta Tradição? Falta Cultura? Falta Educação? Falta Diálogo e Ação Positiva? O que é que falta? De quem é a culpa, quem é o culpado? Quem é opressor e quem é oprimido?

Só entendendo o enredo, revirando o passado e conectando ao presente, fazendo uma profunda análise pra, de repente, descobrir que nem todos são do jeito que se representam. E que talvez as referências e as simbologias estejam distorcidas. E que muito do se vê é encenação e não a realidade. E pra sempre ser lembrado, que qualquer tipo de crítica só deve ter valor se tiver conhecimento da causa, vivência, provas e dados. Se não é só encenação! E nada de realidade!

É diante de impasses e questionamentos da sociedade que o Teatro do Oprimido auxilia na busca de respostas aos conflitos do cotidiano.

É ARTE como forma de DEMOCRACIA!

Para mais informações sobre o Teatro do Oprimido, acesse CTO-RIO.


Michelle Cruz

Em formação na escola da vida, uma artista-arteira, e também, comunicóloga. Fazendo da sua vida uma obra-prima, falando da vida e do mundo que a influencia.
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