inconvencional

Tudo depende do ângulo

Michelle Cruz

Em formação na escola da vida, uma artista-arteira, e também, comunicóloga. Fazendo da sua vida uma obra-prima, falando da vida e do mundo que a influencia

O desabafo

Esse é o relato de uma negra, uma estória com diversas e adversas situações, mas o motivo do conflito é um só: o preconceito. O preconceito da família, no ambiente profissional e o próprio preconceito. E nesse cenário, com vários ângulos, a falta de empatia é um ato desumano, consigo e com os outros.


Negra desabafo1.jpg Ilustração: Rogério Rocha (@gentilpirado)

Hoje, pela manhã, peguei um punhado de moedas e algumas notas que estavam na estante, para comprar pão na padaria da esquina. Eu estava usando um vestidinho curto, um look básico, por sinal, foi a mesma roupa que usei há duas semanas, quando estive em Paris. Nem arrumei o cabelo. Afinal, meu black power acorda pronto. Fui buscar pães e frios, estava morrendo de fome. Eu estava bem, mas, até eu chegar na padaria e uma senhora esbarrar em mim. Então, minhas moedas caíram no chão e ela me disse: “Sai daqui sua negrinha, sua suja, eu não tenho esmola!”. Na sequência, ela entrou no carro e foi embora. E eu fiquei ali em choque!

Mais uma vez, nesses meus 38 anos, eu estava passando por uma cena de constrangimento. Eu não aguento mais conviver com pessoas racistas! Eu não aguento mais falar sobre esse assunto! E depois ninguém entende por que eu prefiro viver na França do que aqui. Lá esse tipo de situação nunca aconteceu comigo. Posso sair descabelada e ninguém me julga. Lá, se tiverem algum interesse em mim, com certeza, vão querer saber da minha índole, antes de me julgar pela aparência Mas, fazer o que fazem aqui e o opressor sair impune, nunca vi! Só no Brasil!

Qual é o problema da minha aparência? Toda pessoa com imagem simples em bairro de rico é bandido, é pedinte? Estou cansada de ser vítima do preconceito dos outros. E ainda ser acusada e humilhada perante todos, como se eu fosse uma pessoa ruim. Como pode alguém ser vítima e bandida na mesma história, na mesma cena?

Cada um vê a situação do jeito que mais agrada. Tem muita gente vivendo na mentira. É por isso que o racismo é esse assunto interminável. Ninguém assume nada!

Onde foi que eu errei? O que eu fiz de errado?

Quando eu era criança, minha mãe me dizia para tomar cuidado. Ela me dizia “Minha filha, você é mulher, negra, brasileira. A sua vida não será fácil. Então, não faça nada de errado.” E de fato, ela não mentiu.

Hoje, foi mais um dia que senti na pele o quanto é difícil, e como é humilhante. Ainda bem que a moça do caixa da padaria foi me ajudar a pegar as moedas e me levantar. Só ela me ajudou. As outras pessoas ficaram me olhando, uns com olhar de dó e outros com olhares de deboche. É o tipo de comportamento que dá náuseas!

Por um bom tempo, o alerta da minha mãe se tornou um mantra na minha vida. Cresci com medo. Cresci olhando para todos os lados, com medo de fazer alguma coisa errada ou ser julgada, tentando saber quem iria me acusar, quem iria me humilhar. E, com o passar do tempo, comecei a perceber que pensar muito naquela frase era como um imã, atraía todo tipo de confusão. E o mais grave, comecei a agir como alguém em fuga, como se eu fosse levar a culpa de qualquer coisa errada que viesse acontecer a minha volta.

A minha primeira experiência profissional foi em um balcão de anúncios. Minha função era receber o pedido dos clientes e, as vezes, cobrir a moça do caixa. E bem no meu primeiro dia de trabalho faltou dinheiro no caixa e eu fiquei desesperada. Logo que começaram a falar do assunto pedi para que olhassem na minha bolsa. Porque eu não tinha feito nada de errado. Eu me acusei! Um dos funcionários mais antigos da casa tentou me tranquilizar e disse que era comum dar algumas diferenças e que ele havia mexido no caixa. Eu sabia que poderia ser vítima de muitas situações, mas muitas outras eu estava me condenando, sem ninguém me acusar. E foi isso que fiz naquele dia.

Graças a uma tia sensata na família descobri que minha vida poderia ser diferente e melhor. Sem tantos bloqueios e medos. Ela era como uma psicóloga, ela escutava os meus desabafos. Ela sempre tinha paciência de conversar comigo e me ajudar. Foi durante muitas conversas e as escritas no meu diário que ela conseguiu me mostrar novos e melhores caminhos pra ser feliz.

Essa tia era o destaque da família, a única entre os sete irmãos que tinha se formado na faculdade. Ela sempre teve uma visão de mundo diferente dos outros. Ela sempre me dizia “Você precisa sonhar, minha menina! E não ter medo de realizar seus sonhos. Tem que planejar e colocar a mão na massa, fazer acontecer”. Ela foi um anjo no meu caminho.

Ao passar dos anos, nas reuniões de família, percebi que todos poderiam ter estudado e realizados seus sonhos profissionais, como a minha tia. Só que nem todos tiveram a mesma gana e perseverança. Eles ficaram conformados com a vida que tinham. Era como se eles entoassem um mantra “eu nasci assim, vou morrer assim, porque meus antepassados foram escravos”. E isso é triste! E não é real!

A minha tia fez toda a diferença na minha criação. Nos momentos mais difíceis ela estava por perto. Ela quem me dava apoio. E me fazia sentir segura. E mesmo ela estando ao meu lado, em alguns momentos, eu me sentia confusa e fazia as minhas loucuras.

Durante o ensino fundamental, as minhas amigas iam para o colégio com as mesmas roupas e os mesmos penteados. E por causa das "modinhas" do colégio eu quase deixei todo mundo louco em casa. Eu estudava em um colégio particular. Minhas amigas eram brancas e de cabelo liso. E eu queria ser como elas. Eu queria fazer parte do grupo, com dez anos de idade era natural eu agir daquela forma. A fase do copiar para ser aceita. E mesmo minha tia me dizendo que meu cabelo era lindo, eu a ignorei. Bati o pé, chorei, fiz escândalo. Até que ela me levou ao cabeleireiro. E eu fiz a maior loucura. Pedi para o cabeleireiro cortar uma franja. E pra completar, o cabeleireiro fez uma escova e passou chapinha. Eu estava me achando a pessoa mais linda do universo.

Após dois dias, imagine o que aconteceu? O cabelo estava sujo, eu querendo lavar, lavei! E o cabelo molhado ficou meio liso e meio enrolado, para deixar o cabelo mais liso o cabeleireiro passou um produto químico especial que estragou os cachos naturais. E a franja, a bendita da franja, virou uma viseira quando o cabelo secou. Voltei a chorar, tinha que fazer escova de novo para o cabelo ficar liso. Bom, passei dois anos esperando o cabelo crescer e igualar. E sair daquele sofrimento e da dependência da chapinha. Nunca mais eu quis mudar o que estava bom. Fazer escova no cabelo, em um dia especial, mudar um pouco o visual, é legal. Mas, mudar radicalmente, vejo que foi uma grande prova de coragem e me custou caro, em todos os sentidos.

Fui amadurecendo com as experiências da vida, deixando de ser a menininha que estava sempre protegida com alguém da família por perto e a questão do racismo começou a piorar. Não apenas dos brancos para os negros, senti de todos os lados.

Eu cursei psicologia na faculdade por influência da minha tia. Ela sempre me incentivou a ler. E entre meus primos e amigos de infância poucos gostavam das mesmas coisas que eu. Acabei me distanciando da maioria deles. Com isso, conheci outras pessoas, comecei a frequentar outros ambientes. Meu ritmo de vida era outro. Nem percebi as mudanças acontecendo. Eu era uma pessoa diferente, não tinha nenhuma relação a ser melhor ou pior do que alguém, eu era diferente das pessoas com quem eu era acostumada a conviver.

Durante toda a minha vida ocorreram várias situações dolorosas, mas o que aconteceu na minha família foi a mais decepcionante. Eles olhavam a realidade deles e se comparavam comigo, achavam que eu estava muito metida porque gostava de coisas diferentes das que eles gostavam. Alguns primos começaram a me chamar de "negrinha da BR" (negrinha dos brancos). E quando eu dizia que meu alvo era chegar ao cargo de diretora do RH eles riam. E diziam que eu não tinha perfil, que não era cargo para uma negra. Eles não entendem que competência não tem relação com a cor da pele. E que eu estava estudando e trabalhando muito para alcançar meus objetivos.

Conviver com a minha família nessa fase foi complicado. O comportamento de alguns familiares era opressor. Com isso fui me distanciando deles. Eu gostaria de voltar a ter o mesmo sentimento bom que tinha na infância, mas nunca mais será como antes. Na realidade, eu também não aceito o jeito deles, como eles não aceitam o meu jeito. E percebi que eu também tinha comportamentos preconceituosos com relação a eles. Eu não falava, mas evitava a convivência. A gente acaba desgostando do que é diferente de nós. E isso é duro assumir!

Diante dos conflitos com a minha família, eu estava muito isolada. E comecei a acreditar que ter um relacionamento, ter um marido resolveria a minha situação. Que se eu me unisse a alguém poderia ter uma família e eu viveria em um ambiente com o meu jeito. Seria o final feliz!

Quando comecei a pensar em encontrar um namorado, fiquei mais aberta a conhecer alguém. E nas idas e vindas da faculdade, conheci um rapaz que morava perto de casa, sempre pegávamos o mesmo ônibus. Ele era bonito, inteligente, muito querido entre os amigos. Ficamos juntos apenas por 3 meses. Logo descobri o lado sombrio dele, ele era bipolar. Ele tinha um comportamento autoritário em casa e entre os amigos aceitava tudo de todos. Em casa exigia que a mãe levasse leite na cama todas as manhãs e entre os amigos queria ajudar todo mundo. Não gostava de ajudar ninguém financeiramente dentro da casa. E quando ajudava, cobrava que a pessoa devolvesse logo. E entre os amigos pagava a conta do bar sem pensar em cobranças. Eu só fiquei com ele por 3 meses porque acabei conhecendo a família exatamente no terceiro mês. Foi o suficiente para entender que era melhor ficar sozinha do que mal acompanhada.

Foi a fase em que me conscientizei que saber lidar com a solidão e a carência é a melhor coisa quando se vive diante de muitos conflitos. Eu já tinha muitas outras situações desagradáveis me rondando pra ter mais uma fixa, ainda mais eu escolhendo. Saber escolher com quem vai dividir uma casa é questão de amor próprio e sobrevivência. É decidir se vai querer ser feliz ou infeliz, e por quanto tempo.

E mesmo com as situações que me deixaram desapontada continuei focada no trabalho. Diante das situações rotineiras fui aprendendo que os sonhos podem mudar. E mudaram! Ser gerente de RH em uma multinacional já não era mais o meu sonho. Percebi que eu estava obcecada com a conquista da posição, o status do cargo de gerente. A liderança, o cargo que eu almejava, de fato, não é comum ter mulheres negras atuando. E isso fez com que as pessoas pensassem que nenhuma negra poderia ser selecionada. O deboche e a preocupação de alguns familiares era de que eu viveria essa pressão de não ser aceita, eles tinha razão, em partes.

O que me fez mudar de ideia foi uma experiência desagradável, na última empresa que trabalhei, tive a certeza que não teria paciência e nem condições de conviver mais tempo naquele tipo de ambiente corporativo.

E essa decisão eu tive há dois anos, quando convivi com uma outra psicóloga que era do mesmo time de trabalho. E ela queria ser promovida, assim como eu. A única diferença é que ela não media esforços para derrubar qualquer pessoa que cruzasse o caminho dela. É aquele tipo de pessoa que mente, engana, rouba, faz qualquer negócio para vencer.

Ela é uma mulher muito bonita, conversa bem, é um pouco enrolada, mas que tem um problema com a sua autoimagem. Não aceita a sua beleza natural. Ela é morena com cabelo castanho escuro. Só que ela adora pintar o cabelo de loiro. Se diz loira, a ponto de ter brigado com um rapaz que disse que a raiz do cabelo dela é escura. O comportamento dela sempre me assustou. Eu já tinha vivido na pele a experiência de querer parecer com as amigas da escola. Mas, era uma situação nova ver uma mulher morena que não conseguia se assumir. Considerando-se naturalmente loira. Percebi que no Brasil não são apenas as negras que tinham dificuldades para se adaptar com sua beleza natural. A imagem da mulher européia é mais desejada do que eu imaginava. E se não bastasse a natureza ruim dela, havia boatos de que ela era amante de um dos diretores da empresa. Diziam que esse era o motivo dela ainda trabalhar lá.

Já não bastasse esse cenário ridículo, eu me tornei a pessoa que ela precisava eliminar. E daí, minha vida virou um verdadeiro inferno. Sempre que eu ficava sozinha com ela era horrível. Ela fazia piadas para me humilhar. Ela dizia que eu era uma negrinha folgada, que eu não deveria estar ali, que eu não teria chances de conseguir o cargo. Ela falou muita coisa desagradável. E eu sempre sendo indiferente, tentando sublimar aos ataques. E o estranho era que ela me oprimia diante das câmeras de segurança da empresa, sabendo que tinha áudio. Ela era realmente abusada.

Ela tentou me difamar, ela reclamava do meu trabalho. E de contrapartida eu era elogiada pelos clientes e funcionários por outros setores. Na época, meu chefe estava de férias e quem estava no lugar dele não soube lidar com a situação. O substituto do meu chefe se sentia pressionado pela outra psicóloga e, sem muitas explicações fizeram meu desligamento. Fiquei arrasada, anos de trabalho jogados ao vento.

Até aquele momento eu não tinha dito a ninguém sobre o que já havia acontecido comigo. E pela primeira vez, resolvi expor a situação com a diretora do RH. Cheguei a escrever uma carta com tudo o que havia acontecido. Falando das opressões e humilhações. Mesmo sabendo que tinha áudio e poderiam comprovar o que eu estava falando, ninguém fez nada. O triste foi saber que a empresa era cúmplice dessa situação podre. Eles tinham acesso aos áudios, ouviram a minha confissão, sabiam de tudo o que eu havia passado e não fizeram nada.

É realmente humilhante, desumano e criminoso o ato de racismo. Mas, quem vai fazer justiça? É isso que eu não sei.

Eu nasci com direito a liberdade. Não passei a vida querendo ganhar benefícios por causa dos negros escravizados. Estudei sem depender das cotas nas universidades, pago minhas contas, desejo o bem a todos, procuro fazer o meu melhor. E o que eu recebo em troca? Convivência com pessoas preconceituosas.

Por muito tempo me senti vítima e me escondi. E agora eu preciso realmente viver. Decidi abrir meu próprio negócio. Sempre gostei de ler e escrever. E decidi abrir uma Editora em sociedade com uma amiga que é jornalista e que passou por situações complicadas como eu. Já tenho meu primeiro manuscrito e o tema é "Assédio Moral - Como não ser vítima". Eu nunca achei que escreveria sobre isso um dia, mas agradeço a cada um que fez a minha vida ser mais complicada do que já era. Não me faltou assunto para escrever e ainda me tornei uma pessoa muito mais forte.

Que ironia do destino, ser grata a todos que tentaram infernizar a minha vida. Hoje, estou no paraíso, trabalhando em algo que gosto, dona do meu espaço. E com a opção de me distanciar de preconceituosos e que atrasam a minha vida.

E depois de tantas experiências, cheguei a conclusão que todas as pessoas são exemplares: são exemplos de tudo que se deve e do que não se deve fazer. E me cabe ser empática aos outros e me distanciar do que não me agrega valor.

A vida realmente ensina quem quer aprender! E eu estou aprendendo!


Michelle Cruz

Em formação na escola da vida, uma artista-arteira, e também, comunicóloga. Fazendo da sua vida uma obra-prima, falando da vida e do mundo que a influencia.
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