inconvencional

Tudo depende do ângulo

Michelle Cruz

Em formação na escola da vida, uma artista-arteira, e também, comunicóloga. Fazendo da sua vida uma obra-prima, falando da vida e do mundo que a influencia

Quitandeiras

Esse é um trecho da estória de Dona Má Boa e sua neta. A prova de que os acontecimentos do passado, quando compartilhados e vivenciados, podem se tornar em fontes de empoderamento.


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Imagem: Marc Ferrez

Saudade. O sentimento que dominava o coração de Ana naquela manhã ensolarada. Momentos de nostalgia. A moça estava sentada à mesa da cozinha, lembrando-se de sua avó, sentindo o cheiro do café fresquinho. Ana o havia coado logo às 5h da matina, da mesma maneira que sua avó fazia todos os dias; esse clima a fazia se sentir a neta mais querida. Ana estava reflexiva, fitando um pássaro na beira da janela, como se estivesse dando bom dia à ave, que ao mesmo tempo a observava.

Ana fechou os olhos e começou a se lembrar da época em que morava na fazenda. De quando via os pássaros em revoada pelo imenso azul do céu, diante dos grandes campos verdes e das plantações de milho. O piar dos pássaros soava como uma canção. Essas lembranças davam-na a sensação de liberdade, dos dias de simplicidade e muito carinho na casa da avó, a inesquecível Dona Marcellina, mais conhecida como Dona Má, que todos chamavam de D. Má Boa. Era uma senhora muito querida por todos.

De repente, Ana começou a chorar, as lágrimas escorriam pelo seu rosto, era um choro que aliviava alma, que se misturava à tristeza e à alegria.

E como cenas de um filme, ela imaginava a Dona Marcellina cozinhando, sempre agitada e sorrindo; que mesmo aposentada, dedicava-se a fazer todas as tarefas da casa como se fosse uma mulher de 30 anos quando, na verdade, ela já havia completado mais de 80. Dona Má tinha corpo de senhora, mas alma de jovem, alma de guerreira.

Todas aquelas lembranças traziam diversas emoções à Ana, sensações de alegria e de tristeza, lembranças das lições e experiências que teve com a avó.

E aos poucos, ela encenou um discreto sorriso, enquanto lembrava-se de D. Má dizendo “Oh! Minha fia, vai termina a lição que a avó tá terminando o trabalho. Você tem que se preocupar em fazer suas obrigações. Os afazeres de hoje são pra fazer hoje, os afazeres de amanhã, amanhã. Muito serviço acumulado é vida perdida”. E terminando a fala, a senhora de alma jovem ria e saia andando, cantarolando pela cozinha, como se não tivesse outro cômodo melhor. Ana ficava maravilhada com a avó; a senhorinha era uma ótima cozinheira, dava conta de limpar toda casa e ainda crochetar com a neta. D. Má era uma joia rara bruta e tinha exímia qualidade.

Ana, mesmo esboçando um sorriso, continuava chorando; era um misto de emoções. O silêncio na cozinha era absoluto, o inverso do que era a mente da moça. Ela estava vivendo um intenso tumulto de emoções.

Por mais alguns minutos, ela continuou a se lembrar dos sons da fazenda, das falas da avó, das imagens do passado. Até que uma lembrança em especial a fez parar de chorar: a avó com roupas africanas e com um tacho de frutas na cabeça. Ela desfilava pela cozinha e falava da vida das negras, como elas eram mulheres fortes, que trabalhavam para os seus senhores e ainda sustentavam as suas famílias. D. Má dizia que as Quitandeiras eram mulheres guerreiras, as negras polivalentes, e que Ana deveria ser como elas.

Quando Ana ainda era criança, ela dizia que queria ser modelo, uma manequim e trabalhar na televisão. E a avó dizia “Sabe como é que essas modelos secas aprenderam a desfilar, fia? Foi por causa das Quitandeiras! Minha mãe contava pra eu. As mulheres da corte viram as Quitandeiras andando elegantes nas ruas e resolveram copiar, usando um livro na cabeça. Elas copio, fia! Mas nunca ficaram fortes e valentes como as negras. Porque mulher forte enfrenta a vida e aprende de um tudo.”

D. Má não se cansava de contar e recontar as mesmas histórias. Ela narrava a rotina das mulheres negras, como elas conseguiam trabalhar para seus senhores, vender os produtos nas ruas, na tentativa de comprarem as suas cartas de alforria e alimentar suas famílias. Eram realmente exemplares, mulheres modelos de vida que, infelizmente, foram marginalizadas em sua época.

Se pudesse escolher você seria Quitandeira ou Princesa  (2).jpg

Ana sempre foi muito estudiosa e tinha facilidade de aprender os trabalhos manuais. Ela aprendeu a bordar e a fazer crochê com a avó. Era o momento em que elas tinham longas conversas, no qual compartilhavam linhas e histórias.

Ana cursou Relações Públicas e Moda. Criou uma ONG – Incubadora – que favoreceu a abertura de milhares de cooperativas de artesanato, criando empregos e vida digna para milhares de pessoas. E tudo com muita motivação e personalidade brasileira. Essas experiências a levaram a ser uma Coaching de Carreira.

Então, aquele dia em que todas as emoções vieram à tona era seu grande dia, o dia de receber o título de “Mulher Modelo de Sucesso”, a premiação internacional que a consagrou a mulher mais influente no mundo dos negócios.

Através da história que a sua avó lhe contava sobre as Quitandeiras, as mulheres polivalentes, Ana criou um programa de melhoria pessoal, buscando qualidade de vida, que intitulou MQ – Método Quitandeiras.

O Método Quitandeiras oferecia resultados positivos, da mesma forma que as Quitandeiras, há anos, conseguiram se sustentar e cuidar das suas famílias, com a diferença que os tempos eram outros. As oportunidades e chances de realizarem os sonhos eram para todos.

No início, muitos intelectuais criticaram o Método Quitandeiras; diziam que era ridículo considerar que aquelas negras eram as “Mães do Empreendedorismo no Brasil”, pois, foi a maneira que Ana referia as Quitandeiras em suas palestras. Isso não fez com que a moça tivesse medo ou desistisse do que ela acreditava; as críticas não foram suficientes para invalidar as provas concretas e a felicidade de milhares de pessoas que aderiram ao Método Quitandeiras e conquistaram seus objetivos.

Ana acreditava que poderia prosperar, mas nunca havia imaginado que as suas vivências de infância lhe renderiam uma carreira tão valiosa.

Aquela manhã nostálgica tinha dois motivos: Um era que Ana iria ganhar o prêmio e o outro, era que, naquela mesma data, há cinco anos, Dona Marcellina havia falecido. Morte natural aos 88 anos.

Ana sentia uma imensa saudade da avó, entendia que cada um tinha seu tempo na terra. Mas era uma data duplamente importante; o falecimento da avó e a maior conquista da sua carreira.

Mesmo durante o turbilhão de emoções que Ana vivia naquela manhã, ela olhou para o relógio e percebeu que estava prestes a se atrasar; tinha diversos compromissos para cumprir antes da cerimônia de premiação.

Durante o trajeto até o escritório, dentro do metrô, foi revendo o seu discurso. E releu por repetidas vezes o trecho que dizia “Apenas as mulheres que se dispõem a exercer multitarefas, as polivalentes, as conhecedoras de várias artes serão capazes de criar um mundo novo. Avante Quitandeiras Brasileiras! Avante Mulheres Empreendedoras! Vamos cada uma cumprir a sua missão, contando a sua história, suas influências e criando novas soluções. Obrigada a todos que me ajudaram a chegar até aqui, em especial a minha avó, Dona Marcellina. Obrigada!”.

Ana cumpriu seus compromissos. Logo, voltou para casa e se preparou para a grande noite. Na hora de seguir para o evento, uma limusine foi buscá-la. Ela e o marido seguiram para o local; Ana não se continha de tamanha felicidade, ele a admirava e segurava a sua mão.

Quando estava no final do evento, Ana já havia feito o seu discurso e feito os agradecimentos, seu marido assumiu o microfone e disse que havia algo de especial para apresentar no telão. Ele havia produzido um vídeo com imagens de Dona Marcellina e a neta nas reuniões de família. Eram cenas dos momentos mais marcantes na família de Ana. Ao final, em formato de desenho, cenas de D. Má contando as histórias das Quitandeiras. Naquele momento, foi como se D. Má estivesse naquela plateia, naquela noite, Ana teve a sensação de missão cumprida.

Aquelas cenas preencheram a alma de Ana, todos os sentimentos que reviravam sua mente se transformaram em amor e gratidão. De forma espontânea, seu marido a abraçou. O semblante deles era de vitória.

A imagem de Ana Catarina da Silva, a neta de Dona Má Boa, a representante das Quitandeiras, tornou-se vencedora de uma grande jornada, foi eternizada.


Michelle Cruz

Em formação na escola da vida, uma artista-arteira, e também, comunicóloga. Fazendo da sua vida uma obra-prima, falando da vida e do mundo que a influencia.
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