inconvencional

Tudo depende do ângulo

Michelle Cruz

Em formação na escola da vida, uma artista-arteira, e também, comunicóloga. Fazendo da sua vida uma obra-prima, falando da vida e do mundo que a influencia

As verdades de Dona Fifi Gossip

Debruçada na janela Dona Fifi Gossip tece comentários, longe de querer condenar, ela apenas fala verdades. Fala do vício dos outros e esquece do seu próprio vício. Seria engraçado se não fosse hipocrisia. A velha mania de querer tirar o cisco do olho do vizinho quando tem uma trave na própria vista. Uma estória de ironia e hipocrisia da vida em sociedade.


As verdades de Dona Fifi Gossip.jpg

Numa manhã de sábado. Dona Naná acordou animada e logo ligou a TV, a primeira notícia era sobre as pessoas que estão perdendo suas casas nas enchentes. Nessa loucura de informações ela prepara o café da manhã e faz sua oração pra que Deus ajude os coitados que estão sofrendo.

Logo que termina sua conversa com o divino, reclama que os noticiários de TV são pura tragédia. Mas, quando o filho entra em casa com uma pilha de DVDs piratas ela ignora a TV, dizendo que é melhor assistir filme que o filho trouxe do que a realidade do noticiário.

O único problema é que ela nunca enxerga o problema que o filho dela causa com esses DVDs. E forma que ele leva a vida fora de casa. O rapaz de 21 anos, o Zé, é motorista de táxi. E exerce dupla função como taxista, fazendo trabalho extra de vapor (vende droga pra usuários). A mãe morre de orgulho do filho trabalhador e nem faz ideia do trabalho pro trafico.

E na guerra entre os taxistas e os motoristas de aplicativo o Zé está perdendo dinheiro. Está muito revoltado e ameaçou matar um rapaz que estava num carro preto, em nome da justiça. O único detalhe é que o rapaz não é motorista, ele só tem um carro preto, parecido com o dos motoristas de aplicativo.

Voltando a Dona Naná, que cansou de ver noticiário, decidiu assistir um dos filmes pirateados. O esquema de DVDs é tão bom que já tinha Moonlight - vencedor do Oscar 2017. Ela logo ligou o aparelho de DVD pra assistir. Sentou no sofá e colocou a mantinha no pé e começou a relaxar.

Antes mesmo do filme terminar já estava criticando, irritada falou "como pode um filme sobre um gay ganhar tanto destaque? Eu prefiro ter um filho ladrão do que gay, credo!" Mal sabia ela que o desejo dela já era como uma ordem, o filho já era a preferência dela. Ela não faz ideia de como a palavra tem poder, de como naquela casa reinava a hipocrisia.

Aquele sábado estava agitado na casa da Dona Naná, nada estava do seu agrado. Ela foi pra cozinha preparar o almoço. Em seguida um homem bateu na porta. Quando foi ver era um policial.

O policial foi procurar o Zé, que ameaçou o moço do carro preto que nem é motorista. A mãe toda nervosa disse que era impossível o Zé ter ameaçado alguém. E começou a xingar o policial.

No momento de desespero, Dona Naná reclamou da política, do policial, do caralho a quatro, dizendo "Você tem que prender essas pessoas que não cuidam do nosso país... aqueles que não valorizam a educação... aqueles que roubam e usam de qualquer jeito o nosso dinheiro... não o meu filho, seus filhos da p#@*!"

Nesse cenário onde se destacou Dona Naná e o filho Zé, ninguém nunca vai saber do Tomé seu eu não falar. O ex-marido de Dona Naná e pai do Zé, o indivíduo que abandonou os dois pra viver com outra mulher. O co-responsável pela vida do rapaz que anda fazendo da vida um inferno e afetando a vida de outros também.

É por isso que a mulher fica em destaque, levando a culpa de não criar bem seus filhos. O homem, o pai, nunca fez nada. Nem pra ajudar e só se ausentou pra piorar a situação. É como se não existisse, um irresponsável tão responsável quanto a mulher. Quase nunca se lembram culpado (responsável) por omissão.

E a famosa corrupção nasce da injustiça. De saber que todo mundo erra mas ninguém assumi seus próprios erros. De achar que quando tem problema é só arrumar alguém pra culpar e esquecer do que aconteceu. De que pedir perdão é não reparar os erros. Toda ação tem uma reação e causa consequências que, talvez, nunca sejam reparadas.

E no caminho da corrupção, só de palavras ao vento e sem atitudes coerentes o mundo vai acabar na desgraça, sem graça. Com um querendo comer o outro vivo pra se safar. Injustiça!


Michelle Cruz

Em formação na escola da vida, uma artista-arteira, e também, comunicóloga. Fazendo da sua vida uma obra-prima, falando da vida e do mundo que a influencia.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/literatura// @obvious, @obvioushp //Michelle Cruz