inconvencional

Tudo depende do ângulo

Michelle Cruz

Em formação na escola da vida, uma artista-arteira, e também, comunicóloga. Fazendo da sua vida uma obra-prima, falando da vida e do mundo que a influencia

Apropriação Cultural ≠ Imposição Cultural

O questionamento não deveria ser sobre a Apropriação Cultural, e sim, sobre a Imposição Cultural do padrão europeu, consequentemente, a degradação da cultura dos povos negros. Esse tema atinge os brasileiros e não apenas os negros.


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A melhor maneira de solucionar uma questão é dialogando e entendendo a situação diante dos fatos. A polêmica sobre o tema Apropriação Cultural é uma busca por justiça e fortalecimento da cultura dos povos africanos. Porém, questionar Apropriação Cultural atualmente é algo incoerente.

Imagine, se existisse uma regra social de que só as pessoas brancas pudessem tocar música clássica e que só os negros pudessem tocar samba, como seria possível essa divisão, se o Brasil é o país da miscigenação? É impossível solucionar essa questão, pensando em divisão! A ideia de purificação da raça humana, da supremacia ariana, nunca foi algo positivo e nem real. Foi um movimento opressor de dominação. A diversidade cultural é um sinal de evolução e uma opção para diminuir a desigualdade social no país.

Na verdade, o questionamento não deveria ser sobre a Apropriação Cultural, e sim, sobre a Imposição Cultural do padrão europeu e, consequentemente, a degradação da cultura dos povos negros.

A questão da imposição da cultura européia não afeta apenas negros, afeta toda a população brasileira. Por exemplo, o modelo europeu compartilhado no Brasil do que é ser uma mulher bonita - ser loira, de cabelos lisos e de olhos azuis - é um modelo idealizado. É uma ideia de dominação, o que sempre denegriu e excluiu a beleza da mulher morena e negra.

A ideia de que a mulher mais bonita é magra, loira e de cabelos lisos é tão fundamentada no Brasil que ainda leva milhares de mulheres morenas e negras aos salões de cabeleireiros para alisarem e/ou pintarem seus cabelos. Mantendo a ideia de que a aparência física é um cartão de visita obrigatório nas relações sociais. E infelizmente, existem pessoas que avaliam uma pessoa pela sua aparência e não pelo bom caráter.

Se os africanos não tivessem sido escravizados, tivessem seguido suas culturas e tradições, não haveria o questionamento sobre o assunto atualmente. A luta dos movimentos negros é por justiça social para que ocorra a igualdade social que nunca existiu no país.

Debater o tema apropriação cultural sem lembrar da história por trás dessas duas palavras pode gerar 'mimimi'. Para entender e realmente ter uma opinião sobre o assunto, que não seja apenas dizer "eu discordo porque eu ACHO que não é dessa maneira" ou "isso é da minha cultura, vocês tem que reconhecer", é preciso analisar os fatos. Caso contrário, é apenas mais uma maneira de tentar denegrir a luta dos movimentos negros e criar barreiras para socialização.

Deveria existir uma regra social para quem decidi discordar de algum tema/assunto: apenas emitir opinião se tiver conhecimento e argumentos plausíveis sobre o assunto, porque discordar sem conhecimento só gera discórdia e mais injustiça.

Uma das maneiras desse assunto começar a ter um tom de justiça é o cumprimento da Lei 10.639/03, alterada pela Lei 11.645/08, que torna obrigatório o ensino da história da cultura afro-brasileira e africana em todas as escolas, públicas e particulares, do ensino fundamental até o ensino médio. O que não é nenhum favor aos povos negros, é reparar um erro cometido pelo sistema racista que existe desde a colonização.

O questionamento da Apropriação Cultural existe porque a história dos povos negros não foram datadas nos livros da maneira que deveria ser. E o pior, a Cultura Européia foi imposta como exemplar e correta.

Educação, conhecimento, informação são chaves para a evolução. E colabora para esclarecer a questão da desigualdade social no Brasil, uma forma de buscar progresso.

Não existe problema algum em uma mulher branca usar um turbante. O problema é quando uma mulher negra usa um tubante e é criticada, rotulada de macumbeira e é oprimida. Enquanto a mulher branca não sofre nenhum tipo de agressão e as grandes marcas continuam fazendo fama e dinheiro com a criação de produtos que, muitas vezes, não inclui pessoas negras em seus processos.

Quando uma marca de produtos usa referências da cultura negra e não envolve pessoas negras no processo de criação e divulgação, ela está criando algo falso. Isso é tão real, que muitas empresas estão mudando a forma de criar os produtos e buscando a participação de seus clientes, para conhecer a real necessidade do seu público e criar produtos úteis e não mais idealizados. Isso faz parte do processo de igualdade social.

A questão do racismo é um problema dos brasileiros e não apenas dos negros. Quando uma pessoa negra confecciona peças com referências da cultura africana e usa vestes africanas ela não pode ser rotulada de macumbeira. Só porque homens brancos, há anos, ditaram que a cultura negra era ruim. Isso é ignorância, é racismo.

Primeiro, porque macumba é um instrumento musical. Segundo, porque estamos num país dito democrático, cada um tem o direito de ser da maneira que quer, sem ser rotulado.

Num ambiente de igualdade, na idealizada meritocracia, todas as etnias deveriam ter os mesmos direitos e deveres, consequentemente, ter um bom desenvolvimento pessoal e profissional. O que infelizmente não acontece. Porque pelas pesquisas do IBGE, os brasileiros pardos e negros, os que mais sofrem com a desigualdade social, consequência do racismo, são os que: tem menos acesso a educação e de boa qualidade; mais sofrem com a violência, recebem os salários mais baixos.

Enquanto houver pessoas denegrindo a imagem do povo negro, ignorando a participação do negro na construção da sociedade brasileira, estarão colaborando com a injustiça. E não com a igualdade. A evolução, o progresso do país, está na mãos da adversidade, da integração dos diferentes. Em gerar comunicação entre os semelhantes para vencer as diversidades e criarem juntos um ambiente ético e justo.


Michelle Cruz

Em formação na escola da vida, uma artista-arteira, e também, comunicóloga. Fazendo da sua vida uma obra-prima, falando da vida e do mundo que a influencia.
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