inconvencional

Tudo depende do ângulo

Michelle Cruz

Em formação na escola da vida, uma artista-arteira, e também, comunicóloga. Fazendo da sua vida uma obra-prima, falando da vida e do mundo que a influencia

Xingamento não é argumento!

O que motiva os xingamentos? Indignação por um acontecimento inconveniente, apenas um costume inocente ou para inferiorizar pessoas? Leia texto até o final e reflita sobre o assunto. Você pertence ao time dos que estão ajudando a criar uma sociedade mais igualitária ou apenas reforçando o preconceito?


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Falar palavrão é uma questão cultural. Os xingamentos fazem parte da cultura de um povo, seja no Brasil ou do outro lado do mundo. Cada cultura tem as suas ponderações do que consideram palavrões. Dependendo da época, do ambiente e das crenças dos indivíduos. Os palavrões, geralmente, estão ligados aos valores e preconceitos de uma sociedade. Falar palavrão é uma maneira de controle social, de criar rótulos, de inferiorizar as minorias, os menos providos financeiramente, de criar tabus sobre a sexualidade.

O perigo da cultura do xingamento é reafirmar o preconceito, que cria estereótipos para inferiorizar e oprimir alguns grupos sociais. O objetivo desse texto não é censurar, mas sim, refletir sobre um costume que é uma das causas da propagação da desigualdade social.

Numa fase de reconstrução social e de discussões polarizadas, é preciso entender o que move os conflitos e onde se quer chegar com esses embates. Com certeza, poucas pessoas param para pensar como é injusto e incoerente xingar alguém durante uma discussão. É perder a oportunidade de argumentar com fatos o que o outro pode estar agindo erroneamente ou de perceber que não tem motivos (não entende os reais motivos) para criticar o outro.

Se uma feminista ou uma pessoa que afirma não ser machista xinga alguém de “filho(a) da puta”, dá pra acreditar que essa pessoa é o que ela diz ser? Se elas defendem e/ou respeitam as mulheres, pra quê usar esse tipo de expressão que inferioriza e rotula a mulher? Se uma pessoa que se considera cristã faz sinal de arma com a mão, dizendo que bandido tem que morrer, quem acredita que eles são o que dizem? É complicado quando as falas não condizem com as atitudes! Esses tipos de atitudes tem permeado a sociedade e reforçado a hipocrisia.

Mudar uma cultura é mudar pensamentos, discursos, comportamentos, ações! O preconceito nasce no pensamento do indivíduo, em acreditar em algo que ele nem tem conhecimento e vivência. Não basta ficar indignado com os problemas sociais, é preciso conhecer os fatos, para argumentar com propriedade. Na maioria das vezes, as pessoas se fundamentam em "achismos", esquecendo que argumento não é um palpite.

A injustiça é reforçada por comportamentos inadequados que acabam sendo considerados naturais, o uso de expressões de xingamento relacionadas as mulheres sempre foram algo comum e é o que oprimiu (e ainda oprimi) as mulheres. Ignorar que essas expressões são a reafirmações preconceituosas, fortalece a injustiça social.

Se muitas das expressões usadas para xingar foram criados para humilhar e inferiorizar pessoas, como continuar usando-os como se fossem comuns, inofensivos?

Toda a expressão que rotula pessoas tem o objetivo de inferiorizar e humilhar algum grupo da sociedade. Se o sonho é viver num ambiente mais justo e coerente será preciso abandonar os hábitos inadequados. Evitar alguns tipos de xingamentos. Com certeza, terão aqueles que perguntarão “Mas, daí, vamos nos calar? Não vai existir mais confrontos? Não vamos desabafar? Tenho que ser do grupo da “santidade”?” Não, mas, será preciso ser pontual e objetivo ao falar do que o oprimi ou a revolta. Se uma pessoa não tem argumento para debater com o outro precisará se calar, xingmento não é argumento.

Entender o que está errado numa situação de conflito evidencia os reais problemas, quem está agindo de má-fé, sem que a discussão se torne uma disputa interminável de quem fala mais para ofender falando palavrões. Tweet do Guilherme Boulos:

Flavio Rocha, dono da Riachuelo, ficou nervoso porque o chamei de hipócrita. Resolveu me processar. O promotor deu uma aula sobre o conceito de hipocrisia e concluiu que neste caso "há pertinência no uso da palavra". A juíza mandou arquivar. Pois é, Flavio, aceita que dói menos. pic.twitter.com/fgJUQ6tjpW

— Guilherme Boulos (@GuilhermeBoulos) 9 de fevereiro de 2019

Um país mais justo só poderá existir com pessoas agindo com coerência e bom senso. Com pessoas que argumentem, ao invés de, xingar ou julgar sem ter conhecimento dos fatos. Repensar os valores sociais, mudar comportamentos é uma obrigação de todos, no sonho de um mundo mais igualitário e digno.


Michelle Cruz

Em formação na escola da vida, uma artista-arteira, e também, comunicóloga. Fazendo da sua vida uma obra-prima, falando da vida e do mundo que a influencia.
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