inconvencional

Tudo depende do ângulo

Michelle Cruz

Detentora de tecnologias ancestrais e futuristas, em eterna formação na escola da vida, uma artista-artesã-comunicóloga se aventurando no mundo da tecnologia. InsPIRADA por artes, experimentações e criações, gerando valor. Fazendo da sua vida uma obra-prima, falando da vida e do mundo que a influencia.

A escravidão, as domésticas e a dívida histórica

Ainda não entendeu a questão da dívida histórica causada pela escravidão? Esta na hora de entender, acompanhando os fatos da história do Brasil. A reivindicação dos grupos ativistas negros pode até ser chamada de rebeldia, mas é com CAUSA. É sobre o racismo estrutural que escraviza moralmente muitas pessoas que se faz necessárias as novas políticas públicas.


Escravidão Dívida Histórica domésticas.jpg

Imagine, se sua mãe fosse uma emprega doméstica, com 50 anos, trabalhando como todos os outros cidadãos, mas sabendo que ela não tem direito ao FGTS. E que na sua linhagem familiar e/ou entre seus amigos próximos tiveram pessoas oprimidas e escravizadas. Essas situações acontecendo em pleno século 21. Qual seria a sua reação?

1) Não é dá sua conta, não tem pessoas nessas condições próximas a você.

2) Ficaria revoltado e lutaria pelos direitos dela.

3) Você acredita em meritocracia, se esse povo que luta trabalhasse MAIS teriam os seus direitos.

Se você respondeu que concorda com a opção 1 e 2 é porque não está preparado para uma sociedade igualitária, provavelmente, não tem amigos negros e nem de baixa renda. É alguém que ainda não sabe o significado do que é empatia. Não está preparado para ver o país evoluir.

Durante a escravidão não existia o termo empregada doméstica, os negros eram considerados escravos. As negras escravizadas eram serviçais, chamadas de mucamas e criadas. Os negros escravizados nunca foram consideradas pessoas dignas de uma vida com qualidade. O trabalho braçal sempre foi tido como uma função inferior, sem valor. A dívida histórica é sobre esse povo que resistiu nos cortiços, resiste nas favelas e nas ruas, sem os direitos que constam na Constituição do país.

Em 1500, quando os portugueses invadiram as terras que eram dos índios, eles tinham o objetivo de dominar e escravizar. Os africanos eram obrigados a fazer os serviços domésticos e braçais. Eles não tinham folga e se alimentavam de restos.

Apenas em 1830 os brancos começaram a tratar do contrato de trabalho doméstico no país, mas por causa da entrada de estrangeiros. A escravidão só foi abolida em 1888. Os negros tinham que se virar para se manterem vivos, enquanto ficavam na propriedade dos "senhores" tinham que pagar pela estadia. Nessa fase que as negras de tabuleiro (negras quitandeiras) saiam as ruas para vender seus produtos. Uma atitude empreendedora negra que nunca foi reconhecida.

Após a Abolição da Escravatura, os brancos da elite brasileira acreditando na Teoria do Branqueamento, esperavam que a miscigenação fosse diminuir o número de negros, como se a cor da pele determinasse a superioridade de um indivíduo.

Ao mesmo tempo, o Brasil começou a receber imigrantes. Japonês, alemães, italianos vieram para o Brasil para trabalhar no lugar dos escravizados, com direito a moradia, terras e oportunidades. Diferente dos negros que começaram a viver em cortiços e nas favelas, eles não receberam terras e direitos para criar negócios em pé de igualdade.

Segundo o sociólogo e político Florestan Fernandes, no livro A integração do negro na sociedade de classes, "O liberto defrontou-se com a competição do imigrante europeu, que não temia a degradação pelo confronto com o negro e absorveu, assim as melhores oportunidades de trabalho livre e independente (mesmo as mais modestas, como a de engraxar sapatos, vender jornais e verduras, transportar peixe ou outras utilidades, explorar o comercio de quinquilharias, etc.). [...] eliminado para setores residuais daquele sistema, o negro ficou à margem do processo, retirando dele proveitos personalizados, secundários e ocasionais [...]. Em suma, a sociedade brasileira largou o negro ao seu próprio destino, deitando sobre seus ombros a responsabilidade de reeducar-se e de transformar-se para corresponder aos novos padrões e ideais de homem, criados pelo advento do trabalho livre, do regime republicano e do capitalismo."

A dívida história com os negros do país não é pelos que morreram na época da escravidão, é pelos descendentes que ainda estão vivendo de forma precária. É pelo racismo estrutural que perpetua e impede o crescimento de pessoas de pele escura e traços negros.

A classe das domésticas começou a receber alguns direitos por lei 1916. O pior é saber que as domésticas só tiveram seus direitos igualados aos dos trabalhadores rurais e urbanos em 2015, com a PEC das domésticas. É por isso que não existe meritocracia no Brasil, não existe igualdade. Não existe cumprimento da Constituição da República de 1988 para todos. É preciso reconhecer a força do povo negro africano e brasileiro que colaborou no desenvolvimento do país.

Só podemos progredir quando enfrentamos a realidade. Ignora-la e não corrigi-la é ignorar a própria história. Enquanto nós, como nação, não reconhecermos a história sofrida dos negros africanos, o poder da classe doméstica, do povo da força braçal, estaremos distante da Ordem e Progresso.

O interessante é comparar uma pessoa que trabalha como doméstica nos Estados Unidos ou Europa com a que trabalha no Brasil. Nesses outros lugares a emprega doméstica é valorizada. Qualquer pessoa exerce a função sem ser rebaixada e recebe um valor justo. No Brasil a emprega doméstica é tratada como alguém inferior, sem direitos.

Escravidão Dívida Histórica.jpg

Empoderar pessoas é reconhecer o valor de qualquer ser humano, mas ao invés disso, temos empreendedores criando negócios para reforçam o trabalho escravo e descredibilizam a profissão. Você já parou para ouvir uma empregada doméstica?

Pensar e agir diferente, positivamente, é uma mudança necessária e urgente! Está faltando a sabedoria africana no Brasil, Ubuntu - eu sou porque nós somos. Se nós somos nos tratamos bem e oferecemos o melhor para nossos semelhantes.


Michelle Cruz

Detentora de tecnologias ancestrais e futuristas, em eterna formação na escola da vida, uma artista-artesã-comunicóloga se aventurando no mundo da tecnologia. InsPIRADA por artes, experimentações e criações, gerando valor. Fazendo da sua vida uma obra-prima, falando da vida e do mundo que a influencia..
Saiba como escrever na obvious.
version 3/s/recortes// @obvious, @obvioushp //Michelle Cruz