Mariah Costa

Escreve crônicas (e outras coisas) no blog Tempo Verbal (link no perfil). Estudante de Jornalismo, mais romântica do que gostaria, a mais velha de três filhas. E sim, é Mariah: lê-se Mariá.

Não leia o fim do livro antes: Não morra de ansiedade

Quantas vezes o meio perdeu a graça porque você só se preocupou com o final?


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Quando nos colocamos a ler uma história (ou a viver uma), supostamente estamos dispostos a passar pela ordem natural dela: começo, meio e fim. O primeiro, talvez o mais simples - e entediante, em alguns casos - tem o objetivo se nos envolver, de despertar o desejo de saber o que virá a seguir. E então, repentinamente, há a chamada ação crescente, e tudo passa a ser mais excitante. O meio se inicia, cheio de problemas, obstáculos, tudo que nos faz estremecer e ansiar desesperadamente pela descoberta que o grand finale traz. Aí que está o problema: o final gera uma expectativa enorme que nos consome, nos enlouquece porque afinal todos precisamos de um encerramento, do momento em que tudo que aconteceu no começo e no meio será justificado e a mente se encherá de claridade, fazendo brotar lágrimas, sorrisos, seja lá o que for. Na verdade, o problema acontece quando a ansiedade é tão gigantesca que você cede e vira o livro, lendo as páginas finais. Você para de viver os meios e só se preocupa com os finais. Tudo que acontece faz brotar o pensamento: como isso vai fazer aquilo acontecer? Você entra em um estado de fixação pelo fim da sua própria história de tal forma que esquece das pequenas coisas que estarão no caminho.

Não pire. Respire.

Desde criança cultivei o hábito de ler as últimas páginas porque simplesmente não suportava a ideia de um final decepcionante. Só que na vida real, decepções acontecem. Esquecemos que os meios mudam tudo. A forma como vamos agir e reagir pode transformar o desfecho completamente. Decidi abandonar essa mania. Por enxergar que enquanto roemos as unhas e perdemos cabelo no sofrimento à espera do assustador final, poderíamos estar vivendo e conhecendo novos personagens, deixando a imaginação (e o instinto) nos guiar por trilhas que sequer imaginaríamos se estivéssemos cegos de ansiedade.

Aliás, que fim é que você está esperando? Ele pode acontecer de repente, bem como pode levar anos, séculos após o começo. Não há como cronometrar os segundos que demorarão e enquanto isso, por que não respirar fundo e ir vivendo? Esquecer que haverá um fim e se entregar as emoções da longa estrada. Enquanto isso... Respire.

Se o fim do livro ficar te chamando, implorando pra que você o leia, não ceda. Mergulhe em outros pensamentos, leia outros livros, viva outras histórias, se disponha a viver meios mais curtos com fins mais próximos. Só por enquanto. É "enquanto isso..." Se a ansiedade te prender em lugares monótonos e te obrigar a criar rugas de preocupação na testa, fuja do comum, saia da rotina, quebre as expectativas. Se ajudar, leia frases motivacionais, dizem que ajuda.

Como diriam as queridas vovós: "O apressado come cru". Talvez, na espera louca do grande final, você se precipite e corte o fluxo natural das coisas. Talvez escolha o primeiro grande amor que aparecer, coloque o carro da frente dos bois, atropele tudo e se atrapalhe completamente. Talvez entre em uma roubada, perca dinheiro, se meta em caminhos tortos impossíveis de sair. Só por não ser paciente. Só por querer desesperadamente um fim. Pra que? A vida é feita de meios. Os viva e o fim chega mais depressa e mais saudável. Não leia o fim do livro antes, não quebre a ordem, não queira saber se os mocinhos se casam ou morrem, apenas leia, apenas viva.


Mariah Costa

Escreve crônicas (e outras coisas) no blog Tempo Verbal (link no perfil). Estudante de Jornalismo, mais romântica do que gostaria, a mais velha de três filhas. E sim, é Mariah: lê-se Mariá..
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