Laís Matos

Ninguém leva a sério. Ama comer, ver filme e faz jornalismo porque gosta das palavras.

Além de 50 tons

O que 50 tons de cinza tem a ver com a Cultura da Convergência? Porque tanta gente odeia o que faz sucesso?
A democratização da informação na internet faz com que qualquer pessoa possa criar, reproduzir e consolidar discursos. E o poder está nas mãos de quem é mais visto.


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Se há alguma palavra capaz de representar o processo de construção – ou reprodução – da informação na internet, ela seria compartilhamento. Qualquer pessoa conectada a uma rede tem condições de produzir textos, vídeos, músicas ou qualquer outro tipo de conteúdo digital. E quando um dado é jogado na rede, um mundo de possibilidades se abre a partir daí.

O fluxo de informações é constante, permite a mudança de uma linguagem para outra ou de uma plataforma para outra muito rapidamente. Não importa se são quadrinhos que dão origem a filmes e series (Walking Dead, mesmo), ou canais do YouTube que dão origem a um programa de TV (Porta dos Fundos): toda essa metamorfose midiática e cultural é proveniente da Cultura de Convergência. Quem propôs o termo foi Henry Jenkins e relaciona a hibridização dos produtos das novas e velhas mídias. O autor explica que a reapropriação de conteúdos e a produção midiática cooperativa são os traços marcantes do atual cenário cultural.

Pra quem não conhece, Henry Jenkins é um pesquisador de mídia bem influente. Escreveu várias obras sobre comunicação e cultura da convergência. De acordo com ele, todas as principais mídias estão de alguma forma, convergindo para a internet, permitindo que os usuários compartilhem experiências e troquem informações.

E é fácil ver a aplicação disso em programas de TV que funcionam a partir de votações ou fóruns na internet, atrações televisivas que exibem conteúdos produzidos pelo público ou até grupos de fãs de um mesmo conteúdo que se reúnem para produzir algo relacionado. É aí que a discussão chega a um ponto interessante: o nascimento das fanfictions. O termo se refere às histórias criadas por fãs de determinada obra: seja um livro, um filme ou uma série - as pessoas que apreciam a narrativa se aproveitam de elementos da trama original para criarem suas próprias histórias. Assim, as fanfictions são postadas em sites que reúnem essas histórias criadas por fãs. O objetivo é reunir fãs que se dedicam a construir um universo que vai além das obras.

O maior exemplo de obra fruto da convergência midiática apresentada por Jenkins talvez seja a série de livros Cinquenta tons de cinza, de E. L. James. A origem da trilogia começa um pouco antes, quando Stephenie Meyer resolve lançar Crepúsculo, uma série de livros criada para adolescentes que alcançou um grande número de vendas em vários países: 120 milhões de exemplares vendidos ao redor de todo o mundo. Sucesso que resulta em uma adaptação cinematográfica – do livro para o cinema –, em vídeos para o YouTube, virais em redes sociais e uma legião de jovens adoradores de vampiros. Obviamente, estouram fanfictions de Crepúsculo que convergem para os mesmos interesses e, no meio delas, uma história consideravelmente semelhante à original ganha destaque: Cinquenta tons de cinza, a história de uma mulher insegura que se apaixona por um homem que oferece riscos a ela, e ela aceita sem pestanejar. Muito romântico.

No entanto, Cinquenta tons de cinza é, em tese, voltado para um público mais maduro, por ter um conteúdo erótico que atinge mulheres mais bem resolvidas e independentes. A história vira livro – que se esgota rapidamente nas prateleiras das livrarias – e quem lê pode perceber que a linguagem se manteve muito parecida com a das fanfictions. Como consequência, atinge rapidamente o público jovem e ganha repercussão por se associar a temas considerados tabus como submissão e machismo. Como previsto, Cinquenta tons de cinza gera conteúdo nas mais diversas plataformas digitais, e na mesma lógica que a sua fonte de inspiração (Crepúsculo), acaba virando filme.

Se formos acompanhar a cadeia de conteúdos e produtos culturais que sempre se reconfiguram para atender as demandas das próprias pessoas que a produzem, vemos que é algo que não tem dimensão. Um livro que origina uma fanfic, que se tranforma em livro, que por sua vez vai para o cinema (lembrando que o primeiro livro também já virou filme), e que hoje, acabou gerando uma serie de novasfanfics – a fanfic da fanfic – A questão é que essa cadeia não termina aí: não dá pra mensurar toda a rede de conteúdos que ela origina, direta ou indiretamente.

É a definição prática de quando Henry Jenkins diz: “O fluxo de conteúdos através de múltiplas plataformas de mídia, a cooperação de múltiplos mercados midiáticos e o comportamento migratório dos públicos dos meios de comunicação que vão a quase qualquer parte em busca das experiências de entretenimento que desejam”.

E quanto mais sucesso um determinado produto gera, maior a quantidade de conteúdos que giram em torno dele. É possível que esse seja o motivo dos atuais best sellers e blockbusters serem odiados por tanta gente. Tudo que é muito visualizado é muito repercutido, e se muita gente conhece, claramente muita gente não vai gostar. O fato é que até hoje ninguém conseguiu explicar porque algumas ‘modinhas’ fazem tanto sucesso, considerando a qualidade e o ódio mortal que elas provocam. E quando digo sucesso, falo de obras que rendem milhões aos seus criadores. Tanta gente despreza obras como 50 tons de cinza não apenas por considerarem o sucesso inexplicável, mas também por alimentarem um gosto por tudo aquilo que não virou popular, ou seja, que não foi aderido pela maior parte das pessoas ou não segue uma lógica tão comercial. O cult, o underground denota, ás vezes, um conteúdo que desperta o senso crítico ou construído sob um fundamento estético. No entanto, não significa que é superior nem desmerece a qualidade de algumas modinhas bem sucedidas. Nada aqui pode ser generalizado. Sucesso não indica qualidade, seja ele nas bilheterias ou no gosto considerado alternativo.


Laís Matos

Ninguém leva a sério. Ama comer, ver filme e faz jornalismo porque gosta das palavras..
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