Laís Matos

Ninguém leva a sério. Ama comer, ver filme e faz jornalismo porque gosta das palavras.

O Demônio da ostentação e uma noite na Av. Paulista

A víbora do jornalismo, Joel Silveira, e suas célebres reportagens sobre a futilidade dos grã-finos de São Paulo e o casamento mais belo do brasil.


“A mais bela festa do Brasil não foi, contudo, apenas um espetáculo. Mais do que isso, foi uma sucessão de espetáculos e acontecimentos mundanos. Nenhum paulista poderá esquecer aquela semana, um desfilar ininterrupto de recepções, jantares, ceias, bailes e festas.”

Esse e outros trechos foram retirados do livro de Joel Silveira, A milésima segunda noite da avenida Paulista.

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Em 1945, São Paulo foi palco do maior espetáculo da alta sociedade. Um casamento. A filha do conde Francisco Matarazzo Júnior com o “pracinha” João Lage. “A mais bela festa do Brasil” é narrada por Joel Silveira de forma tão requintada quanto o modo de vida dos simpáticos milionários da Avenida Paulista. A célebre reportagem, que dá título ao livro ‘A milésima segunda noite da Avenida Paulista’ marcou o estilo sarcástico e cheio de metáforas de Joel e com ele, o que viria a seguir no jornalismo brasileiro – A quebra do estilo tradicional trazendo narrativas longas e literárias. Joel abre mão da objetividade para entreter o leitor com descrições detalhadas (em primeira pessoa), cheia de opiniões verossímeis e comentários irônicos.

A narrativa jornalística transporta o leitor para o meio da elite paulistana da década de 40, ou melhor, para um observador que não faz parte dessa elite, seleta e fechada. Para compreender inteiramente o universo descrito, vale a pena ler o texto anterior ‘1943: Eram assim os grã-finos em São Paulo’, onde ficamos a par de todos elementos da vida social dos paulistas mais abastados. No texto, quase um manual de como viviam os grã-finos, conhecemos o modo de vida elegante: Onde comem, quais os espaços de interação, as formas de lazer, os intelectuais que apreciam, os cronistas e literatos prestigiados que fazem parte dela, a aversão ao Rio de Janeiro, e por aí vai. Tudo minuciosamente explicado e dividido em partes: O sobrenome, o dinheiro, a ópera, a flor, o “Coins des Bouquins” (uma livraria com espaço de chá onde os grã-finos se reúnem e conversam). Um preciso deboche ao modo de vida fútil e de aparências da alta sociedade paulistana.

Comparando com o momento atual, em que ostentação ganhou algumas derivações e novos sentidos, vemos que uma coisa ainda se mantém, o exibicionismo natural do ser humano. No entanto, se antes ela se resumia a futilidade da elite, hoje faz parte do modo de vida da classe emergente. A grande quantidade de pessoas que ocupam as classes C, D e E deram início a uma cultura que além de funk ostentação, expressa um modelo de orgulho e legitimação da própria identidade. Muito mais válido que a frivolidade de uma elite que não compreende o que é ser invisível na sociedade. Até porque, todo mundo tem um pouco de vaidade.

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“É noite e São Paulo rico está resumido ali na pista do Jequiti-Bar. Durante o dia, as mulheres fizeram coisas inúteis: acordaram tarde, almoçaram em bloco, jogaram pife-pafe, compraram a revista Sombra, tomaram chá na livraria Jaraguá, jantaram na Papote e falaram das amigas.”

O texto traz a perspectiva de uma sociedade desprezível e imersa em suas próprias banalidades. Alheia a todos os movimentos sociais, econômicos e culturais que circulavam pelo Brasil, e até mesmo somente em São Paulo, que não estivessem relacionados com a esfera de seus interesses. Revela ainda uma pobreza cultural que nega a própria identidade na busca de um padrão europeu (inviável) forçado, o que reflete um modo de vida provinciano e kitsch (elementos ‘bregas’ que copiam referências da considerada cultura erudita). “Quase todos os cavalheiros da haute gomme paulista são donos de fábricas ou vice-presidentes de empresas importantes. Ser vice-presidente de qualquer coisa é uma das principais condições para livre ingresso no perfumado mundo social de São Paulo.”

Enquanto conta toda a história do ‘maior casamento de São Paulo’, desde os motivos que a originou até a movimentação frenética das pessoas, Joel traça, de forma sutil, o cenário desigual existente em São Paulo. A elite de São Paulo dedicava toda sua energia, tempo e suado dinheiro para entrar na lista de convidados e não perder o status de high society.

“Era, a bem dizer o congresso da grã-finagem nacional, antes tão dispersa nos seus movimentos e que, agora, atraída pela força magnética do conde Matarazzo, se confundia num bloco interestadual, poderoso e aurifulgente.”

Apesar de não ter ido à festa, Joel tem conhecimento de todas as informações, dados e números. Desde os motivos que originariam a festa (principalmente profissionais e comerciais), às conversas entre as famílias tradicionais e movimentações entre os convidados (800 ao todo). Joel descreve os extensos gastos da festa, os cozinheiros caríssimos, o balé exclusivo (antes somente representado para Getúlio Vargas) e os trezentos mil cruzeiros investidos em fogos de artifícios especiais.

“Tanta coisa mais, meu Deus, que teria acontecido com o conde Francisco Matarazzo Júnior? Que teria acontecido? Antes tão pacato, metido lá com seus negócios, de casa para suas fábricas, das fábricas para o maciço arranha-céu vizinho ao viaduto do Chá e, de repente, por artes diabólicas, o demônio da ostentação toma conta do seu espírito e o obriga àquele espalhafato todo.”

Toda a epopeia em torno do casamento além de revelar o mundo brilhante burguês desemboca no outro extremo da situação, o mundo, não tão brilhante, que ganha espaço no finalzinho da matéria, mais precisamente na última página, o mesmo espaço de visibilidade que tinha na sociedade. O casamento da filha de uma operária de uma das fábricas Matarazzo.

“(…) estive na humilde casa da Vila Romana, onde se realizou o matrimônio da moça Nadir Figueira Ramos com o rapaz José Todeschi, torneiro-mecânico. Quando voltaram da igreja, na cidade, ela de azul, ele de marrom, encontraram o seu pequeno lar enfeitado com algumas flores de papel crepom e outras naturais; duas cortinas brancas na janela, pão doce, goiabada, refresco de laranja, quatro ou cinco garrafas de cerveja e algum guaraná. Os móveis eram rústicos, e ainda não estão pagos. E depois do casamento, no dia seguinte, Nadir voltou para sua fábrica e José para sua oficina. Lua-de-mel, sim, mas depois das poderosas chaminés da Matarazzo gritarem o fim do segundo expediente do dia.”

Olívia Figueira Ramos, a mãe de noiva foi à redação do Diário de S. Paulo pedir uma notinha qualquer sobre o noivado da filha. Afinal, tinha visto a divulgação monumental do casamento e nada mais justo que publicar algo sobre o casamento dela. “Moço, será que só a filha do Matarazzo tem o direito de ver o seu casamento noticiado pelos jornais? Gente pobre também não casa?”.

Nas descrições dos dois casamentos, Joel traça um paralelo das condições de um mesmo evento vivenciado pelos dois extremos da sociedade. “Era, afinal, uma compensação, um tanto melancólica, para quem não pôde romper a terrível e impraticável parede que separa o mundo dourado do palácio da avenida Paulista e o mundo prosaico da rua, o nosso mundo. E de tais compensações vivem os repórteres otimistas.”

imagem capa: Walter Enner/Folhapress


Laís Matos

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