Laís Matos

Ninguém leva a sério. Ama comer, ver filme e faz jornalismo porque gosta das palavras.

O filho indomado da humanidade: Um perfil da loucura

O louco passou a existir na história quando surgiu alguém para dizer que ele era errado. Sempre questionei sobre o conceito da loucura. Talvez por não conceber muito bem o que difere uma pessoa louca de uma sã, talvez por ter minha sanidade posta em dúvida inúmeras vezes ao longo da vida.
"A loucura é um simples desarranjo, uma simples contradição no interior da razão, que continua presente" (Hegel)


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"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música." Nietzsche

Cada pessoa tem sua própria percepção de realidade e a realidade é algo que nunca, como humanos, vamos conseguir compreender integralmente. Então, como alguém pode julgar que a percepção do outro é errada? Se cada pessoa tem suas próprias fantasias, a realidade seria uma fantasia coletiva. O lugar em que padrões e convenções se repetem incansavelmente até virar uma ordem. Quem segue uma lógica diferente da já existente - a realidade ilógica - é taxado como louco. Daí a gente lembra do inconsciente coletivo de Jung, um conjunto de sentimentos e pensamentos que herdamos e compartilhamos com o resto do mundo.

Se Copérnico, Charles Darwin, Leonardo da Vinci e tantos outros foram loucos para o seu tempo, porque ainda insistimos em ver o moço que tira a roupa no meio da rua como doente ou inválido? Não estou dizendo que todos os loucos são grandes gênios incompreendidos ou que o transtorno mental não é um distúrbio que precisa de tratamento. Quero dizer que independente do comportamento da pessoa, da presença ou não de um quadro de transtorno mental, o que ela pensa deve ser respeitado. Quem pensa fora da caixa deve ter seu valor reconhecido.

A definição da loucura é algo mutável e moldável com o passar dos anos, é construída historicamente. Não é preciso esforço para lembrar os castigos aos hereges da idade média, a caça as bruxas, as guerras religiosas, os genocídios. Em qualquer momento histórico, o indivíduo ou grupo desprovido de poder de voz e razão foi denominado louco por reproduzir ideias absurdas demais para uma sociedade hegemônica. O louco era aquele que estava ali para quebrar a ordem. Temos exemplos de grandes gênios e incluo psicopatas e revolucionários nessa lista.

Já dizia Foucault que o presídio, a escola e o manicômio são as instituições de docilização humana. As ‘instituições de sequestro’ são os instrumentos mais fáceis para disciplinar o indivíduo na sociedade. Por isso, desde pequenos vamos à escola aprender padrões de comportamento e convenções da vida social, e caso a escola não seja suficiente para moralizar e formatar o cidadão, ele é confinado em prisões, manicômios, hospitais para que não desequilibre a estabilidade de uma sociedade adestrada.

Os loucos só passam a ser confinados em um local específico em certo momento histórico. Nesse período, os hospitais não funcionavam exatamente como local de cura e sim como um depósito cruel onde as pessoas eram jogadas por qualquer motivo que as tornasse indesejadas. Quem leu o Alienista de Machado de Assis pode lembrar do personagem engraçadinho, Simão, que decidido a estudar a loucura, constrói a Casa Verde, um hospício aonde ele vai internando os loucos da cidade. Mas depois de um tempo, Simão percebe que já internou todas as pessoas da região e até ele mesmo passa a se considerar louco. O livro consegue explicar o pavor que muitas pessoas sentem frente à loucura. É compreendido como quase natural que os loucos devam ficar ‘protegidos’, confinados.

Foucault também fala que a doença só é realmente doença na cultura que a reconhece como tal. Depois da psicanálise e dos estudos mais recentes da psicologia, o louco ganhou um lugar mais digno na sociedade, no entanto, ainda é um lugar de invisibilidade. A luta antimanicomial tem conseguido grandes avanços nas condições das pessoas que vivem nos hospitais presídios, mostrando a realidade desses lugares que sentenciam a loucura à prisão perpétua.

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A anormalidade só existe quando alguém indica o que é norma. É a incapacidade de se adaptar ao ambiente social e com isso, todo mundo sofre um pouquinho. Afinal, todo mundo tem sua parcela de loucura, por mais abstrato que pareça tentar defini-la. Compreender a loucura é uma vontade presente em todos nós. Reconhecer é preciso, mas controlar é um erro.


Laís Matos

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