Laís Matos

Ninguém leva a sério. Ama comer, ver filme e faz jornalismo porque gosta das palavras.

Ela vai voltar, não é?

A história a seguir faz parte da série Casa de Memórias. Além de mostrar as lembranças de uma senhora solitária, conta a história de um tempo.
A partir de sua vida, ela compartilha detalhes do cotidiano de meados do século XX no nordeste do Brasil, como: viajar de carona, comprar roupas em feiras de rua, não estudar na infância para ajudar a família e viver sem energia elétrica e aparatos tecnológicos.


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A senhora de camisola azul estava sentada em uma cadeira larga, afastada. Serena, não hesitou em desfiar sua história que começa lá no interior do Piauí, próximo ao Rio Parnaíba. Raimunda Vera dos Santos passou a infância subindo nos pés de caju da roça do pai, ao lado de nove irmãos: “lá tinha muita coisa: vaca, cavalo. Tinha a época da farinhada, que a gente passava uma semana fazendo farinha. Eu gostava tanto. Às vezes passava até um mês, depois a gente fazia beiju de tapioca”.

Apesar das perdas que seus 80 anos carregam, Dona Raimunda não está só. Repete orgulhosa que tem uma filha adotiva morando em Londres e casada com um homem velho. “Quando ela vem, passo uma semana ou duas com ela, na casa em Stella Maris.”

Raimunda perdeu o pai cedo e, com isso, o tempo das coalhadas e cajueiros chegou ao fim. Quando ele morreu, parentes tomaram a fazenda e deixaram nada para os filhos. “Agora não acontece mais isso, mas na época, nem um vestidinho de fita eles deram".

Mesmo com o olhar cansado, ela não esconde sua natureza ativa. Logo pequena, já trabalhava como babá: “toda a vida eu trabalhei”. A disposição para a labuta talvez tenha levado dona Raimunda a atravessar tantos lugares em busca de autonomia e paz. Os capítulos que dividem sua história começam no Piauí, passam brevemente por Fortaleza e se acomodam na Bahia, lugar onde vive até hoje.

A placidez da velhice domina seu rosto enquanto relembra as aventuras da mocidade. Dançava muito nas festas, tanto que os rapazes faziam fila por ela e suas irmãs. “Eu adorava dançar. Eu danço ainda, mas hoje sou evangélica. Só danço para Jesus”. Se ela gostava de namorar, não sabe dizer, mas as respostas vazias apenas denunciam as peripécias românticas de sua juventude. “Eu só tinha namorado que tocava em banda. Éramos três irmãs e todas namoravam os músicos. A gente gostava de dançar samba”.

Raimunda ficou muito triste quando seu filho morreu, antes mesmo do parto. O pai era Eliezo, um namorado que, como os outros, tocava música. E ficou mais triste ainda quando, logo depois, Eliezo se casou com outra mulher, também chamada Raimunda. “Eu fiquei com muita raiva dele e fui embora para Fortaleza”. Amargurada, foi para lá morar com a irmã que a obrigava a fazer os serviços domésticos. Mas suportou a condição por pouco tempo. Não achava certo uma irmã trabalhar para outra.

Pouco depois partiu para a Bahia, onde trabalhou em casas de família como faxineira e cozinheira. Cheia de orgulho, conta saudosa o quanto gostava de trabalhar: “sei cozinhar muita comida boa. Fui criada com muito peixe”. E até hoje ela cozinha. Quando sua filha Nicole vem, prepara tudo o que sabe. “Nicole não cozinha, compra umas comidas prontas, eu não gosto”. A filha foi adotada com apenas dez dias. Raimunda se preocupou em dar uma boa educação à filha, bem diferente dela, que estudou apenas para aprender a assinar o próprio nome.

Ainda hoje, a velhinha delicada cuida da aparência. Vaidosa, olha para as unhas bem pintadas com satisfação. Quando era moça, comprava batom e outras coisas com o próprio dinheiro.

Assim que se mudou para a Bahia, Raimunda passou um tempo trabalhando em Jequié. Passou por quase todo tipo de lugar até chegar à casa de um casal de idosos, em Salvador. Os velhinhos tinham um filho de criação, e quando viu o rapaz preparando café da manhã para ela, fazendo tudo para agradar, não hesitou em casar com o baiano. “Ele era muito bom e eu não deixei escapar”. O baiano era José Vieira do Santos, que vendia sorvete na Praça da Sé.

Mesmo depois de casada, ela continuou trabalhando. A moça independente nunca gostou de ser sustentada por alguém. “Eu gostava de ir à praia, mas não para tomar banho. Só tomar guaraná e comer peixe frito”.

Apesar de mais uma vez não conseguir ter um filho, Raimunda adotou Nicole e construiu um lar ao lado de José. “Ela veio de Feira de Santana. Eu e meu marido pegamos para criar”. Enquanto olha para o passado, lembra que gostava de ir ao Cinema Jandaia na Baixa de Sapateiros. Hoje o cinema está em ruínas, bem diferente das lembranças de dona Raimunda. Os cinemas de bairro já não existem em Salvador e a velhinha de poucos sorrisos não lembra mais dos filmes que assistia. Mas de um nome ela lembra: “vocês conhecem Jerry Adriani?”. Resgatar da memória o cantor de sucesso dos anos 60 e 70 faz Raimunda sorrir de leve, por um breve instante.

Ela não conta como José morreu. Apenas diz um pouco amarga que, depois disso, foi morar na Associação Casa de Caridade Adolfo Bezerra de Menezes, em Lauro de Freitas. Raimunda diz não sentir falta do passado, nem queria ser mocinha outra vez. É evangélica e feliz com a vida que tem. Mas, quando fala da mãe, tristeza e saudade tomam conta de sua voz. Ela ainda era pequena quando, pouco antes de morrer, sua mãe chamou todos os filhos para se despedir.

Já os irmãos, se espalharam pelo mundo. Como tantos outros idosos, dona Raimunda queria saber o que aconteceu com suas seis irmãs e três irmãos. “Ás vezes acho que tem algum irmão meu espalhado por aí. Tinha uma senhora aqui chamada Teresa que morreu. Acho que era minha irmã Teresinha”.

Solidão e espera definem a vida de Raimunda. Sempre como se estivesse contando pela primeira vez, repete com frequência que tem uma filha morando longe. “Se minha filha não tivesse viajado, estaria aqui comigo. Ela não está feliz lá também, ela quer voltar".

Raimunda hoje parece viver no vazio da espera, sentada em sua cadeira aguardando a filha. Ela conta suas memórias aos estranhos que aparecem nos feriados. “Agora tenho 80 anos, estou só esperando Deus me tirar daqui”. A velhinha de camisola azul sabe que o fim da vida não reserva muito para os solitários, mas ainda assim, se equilibra na estreita esperança quando fala da filha: o que mais deseja é que Nicole volte para morar com ela. Ainda assim, dona Raimunda não se diz infeliz: “eu gosto muito daqui, todo mundo gosta de mim”. Mas quando olha para baixo, fala mais uma vez: “porque minha filha está em Londres, mas ela vai voltar, não é?”.


Laís Matos

Ninguém leva a sério. Ama comer, ver filme e faz jornalismo porque gosta das palavras..
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