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Bem vindo ao que eu sou.

Michelle Oliveratto

Mineira, estudante de música e observadora incansável do mundo. Para mim escrever é preciso, navegar nem tanto. Sigo tentando acalmar toda folha em branco que se aflige com esse silêncio pautado

“As Canções” de Eduardo Coutinho e as trilhas sonoras da vida real

Qual é a música que marcou a sua vida? Depois de responder essa pergunta, te convido para escutar as histórias e as músicas que marcaram a vida das pessoas que participaram do projeto “As Canções” do cineasta brasileiro Eduardo Coutinho.


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Nossa vida é uma obra aberta, assim como as telenovelas. Inevitavelmente, somos arrebatados por canções que ultrapassam o espaço de mero instrumento de entretenimento e servem como fio condutor de lembranças. Nós nos apossamos daquelas obras e estabelecemos uma relação de intimidade tal qual como o compositor. Eduardo Coutinho retrata muito bem essa situação no projeto “As Canções”, no qual reúne pessoas anônimas que contam suas histórias e entoam as canções que as embalaram.

A simplicidade que a película é conduzida só preenche ainda mais o nosso olhar. Tudo acontece em uma sala escura, onde a filmagem começa desde o momento que o indivíduo surge por detrás de uma cortina, dando ênfase ao mistério que nos aguarda. Impossível não imaginar que história carrega aqueles passos tímidos caminhando para uma equipe de filmagem, que não estavam interessados na sua profissão, idade ou classe social, apenas o essencial estava em pauta, as demais informações eram apenas coadjuvantes.

Sempre em tom desconcertante, esses anônimos encantadores se acomodavam em uma cadeira, para que diante deles fosse feita a pergunta chave: “Qual é a música que marcou a sua vida?”. Em seguida, o ambiente era iluminado, não digo tecnicamente, mas emocionalmente, quando era possível ver a mudança da feição dos participantes, como se a pergunta os pegasse pelas mãos e os teletranportasse para os tempos idos, momento exato que aquelas canções estavam sendo executadas. Automaticamente, embarcamos juntos nessa viagem. Aqueles rostos, que outrora se tratavam de desconhecidos, estabelece com o espectador uma relação de proximidade, quando ocorre a identificação com aquela narrativa, compatibilidade musical ou quando nos emocionamos e, gentilmente, acolhemos aquele discurso, reconhecendo a riqueza emocional que ele carrega.

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São pessoas de várias idades, histórias distintas, dignas de qualquer dramaturgia de sucesso. Como o relato de Gilmar que fala sobre a música “Esmeralda“, canção que nunca ouviu no rádio, lhe foi apresentado através da voz materna, ainda viva. Ela exercia o ofício de costureira e ele se emocionou ao lembrar-se dela cantando essa música enquanto trabalhava. Em seguida, ele demonstrou um profundo desconforto pelas suas lágrimas, visto que não imaginava que uma música que remete lembranças boas poderia provocar tamanha emoção.

Somos presenteados, também, com histórias de amor que venceu a barreira do tempo, como a da Sônia que tirou orgulhosamente da bolsa a carta que um antigo namorado escreveu para ela, em 1969, e que ela guardava até o presente momento. Ou Isabell, estrangeira que veio para o Brasil por causa da capoeira, se apaixonou, sofreu uma desilusão amorosa e foi no samba “Você me abandonou” que encontrou o consolo e a força para superação. Maria de Fátima, se emociona ao cantar a música “Olha”. Depois das lágrimas, o pedido de desculpas, justifica dizendo que a canção é muito profunda. Ramon, mostra uma composição própria que fez para o pai que faleceu. Seus versos em tom de desabafo que, ao cantá-los, exterioriza o arrependimento por ter negado inúmeros passeios à beira da praia com o pai.

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Eduardo Coutinho foi um excelente maestro dessa sinfonia de histórias, conduziu com muita sensibilidade, ouviu cada relato e, apesar da sua imagem não aparecer no vídeo, é possível notar o respeito que ele tinha com aquelas pessoas. As vozes, até o silêncio preenchido de choro soava como canção. Um filme, documentário ou terapia musical para aqueles envolvidos que davam voz as músicas conhecidas, que embalaram seus momentos mais íntimos. Era possível notar o orgulho que eles tinham por participar desse projeto, visto que teriam suas histórias eternizadas de uma forma tão humana, emocionante e poética.

Filme que nos leva às lágrimas, questionamentos e ao encantamento. Só cabe dar continuidade a essa pergunta: aual é a música que marcou a sua vida?


Michelle Oliveratto

Mineira, estudante de música e observadora incansável do mundo. Para mim escrever é preciso, navegar nem tanto. Sigo tentando acalmar toda folha em branco que se aflige com esse silêncio pautado.
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