infinito particular...

Bem vindo ao que eu sou.

Michelle Oliveratto

Mineira, estudante de música e observadora incansável do mundo. Para mim escrever é preciso, navegar nem tanto. Sigo tentando acalmar toda folha em branco que se aflige com esse silêncio pautado

"Love" de Alexander Milov e as ilhas emocionais dos conflitos humanos

Separe alguns minutos do seu dia e simplesmente observe essa escultura, porque ela tem muito a dizer.


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O que você vê? Que sentimentos ela desperta? Quanto de você que tem ali? Você se identifica? E sua criança interior, como está?

Depois das observações feitas, devo lhe dizer que essa obra se chama: “Love” do escultor ucraniano Alexander Milov e, foi um dos destaques do festival de Burning Man.

O artista explica: “Isso demonstra um conflito entre um homem e uma mulher e a expressão interna e externa da natureza humana. Seu interior é moldado por crianças transparentes, que detêm as mãos pelas grades. Quando escurece, as crianças começam a brilhar. Esse brilho simboliza pureza e sinceridade que une as pessoas e dá a oportunidade de consertar as coisas quando chegar em tempos sombrios“.

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Quem observa pode ter sua interpretação individual sobre a obra. A arte nos permite fazer essa apropriação de sentimentos alheios. Ainda mais quando se trata de um trabalho tão sensível, objetivo e humano como esse do Milov que retrata conflitos tão íntimos. Como não se identificar? Como não se enxergar nessa obra? Como não se sentir representado?

Dois corpos sentados, em posições opostas, visivelmente deprimidos. Em segundo plano, duas crianças, que ao contrário dos adultos, estão uma de frente para outra, com os braços estendidos como quem almeja aproximação, contato. A estrutura da obra assemelha-se com as grades de uma gaiola que cumpre com sua função de aprisionar, limitar e negar contato com aquilo que liberta.

Como muitas vezes a vida imita a arte, essa estrutura de metal que foi exposta no festival de contracultura que acontece no deserto de Black Rock nos EUA, pode ser facilmente associada ao deserto de nossas emoções, quando abatidos pelos nossos conflitos, ficamos na mesma situação retratada por Milov. Aprisionamos a criança que habita dentro de nós e, deixamos o adulto prostrado dominar a situação, muitas vezes movido pelo orgulho, medo, insegurança e uma série de outros sentimentos negativos. É fato que o tempo serve para aperfeiçoar o aprendiz, mas muitas vezes, a mão dura da vida ao mesmo tempo em que aprimora e nos torna aptos para exercer esse ofício de existir, ela nos tira certas habilidades que vemos facilmente nas crianças, como por exemplo: a forma de lidar com os conflitos.

Quando há desentendimento entre duas crianças, elas brigam, choram, podem até se agredir, mas esse conflito não se estende por muito tempo, logo podemos vê-las brincando novamente, como se nada tivesse acontecido. Criança não perde tempo com rancor, raiva ou orgulho, elas têm ansiedade para viver e desfrutar as levezas da vida. Suas emoções são intensas e genuínas. Seus conflitos são rapidamente resolvidos.

Essa habilidade, perdemos com o tempo, mas Milov veio para nos lembrar de que nos tempos sombrios devemos deixar que nossa criança interior venha à tona e nos liberte das gaiolas emocionais que nos aprisionam. Que devemos ter pressa para amar. Viver a dor no tempo que ela deve ser vivida, mas não nos tornar refém dela. Como diz os versos cantados por Milton Nascimento: “Há um menino/ Há um moleque/ Morando sempre no meu coração/ Toda vez que o adulto balança/ Ele vem pra me dar a mão/ E me fala de coisas bonitas/ Que eu acredito/ Que não deixarão de existir/ Amizade, palavra, respeito, caráter, bondade alegria e amor”. E podemos concluir com Arnaldo Antunes:“Vai sem direção/ Vai ser livre/ A tristeza não/ Não resiste.../ Faça sua dor dançar”. E concordar com Oswaldo Montenegro quando ele diz:“Que a arte nos aponte uma resposta, mesmo que ela não saiba. E que ninguém a tente complicar, porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer”.

Sim, a arte sempre nos aponta uma resposta, caminho e direção. É preciso apenas ter um olhar disposto para perceber.


Michelle Oliveratto

Mineira, estudante de música e observadora incansável do mundo. Para mim escrever é preciso, navegar nem tanto. Sigo tentando acalmar toda folha em branco que se aflige com esse silêncio pautado.
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