infinito particular...

Bem vindo ao que eu sou.

Michelle Oliveratto

Mineira, estudante de música e observadora incansável do mundo. Para mim escrever é preciso, navegar nem tanto. Sigo tentando acalmar toda folha em branco que se aflige com esse silêncio pautado

O céu de Ícaro tem mais poesia que o de Galileu

Foi jogando algumas coisas fora que encontrei um e-mail e finalmente entendi por que o céu de Ícaro tem mais poesia que o de Galileu.


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Certo dia estava seguindo o ritual cantado por Herbert Vianna na canção “Tendo a Lua”:

“Eu hoje joguei tanta coisa fora/E vi o meu passado passar por mim/Cartas e fotografias, gente que foi embora./A casa fica bem melhor assim.”

E nessa mística de desocupação de espaços para avaliar o que deve ser guardado e o que deve ser jogado fora, encontrei justamente um e-mail que escrevi e falava coisas sobre: Dor, Ícaro e Galileu. Achei engraçado porque me vi dentro da canção, repetindo as ações e vendo o meu passado passar por mim.

No e-mail meus sentimentos estavam casados com a música e na tentativa de me explicar, acabei entendendo por que o céu de Ícaro tem mais poesia do que o de Galileu.

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A estrela mais próxima do nosso planeta está há não sei quantos anos luz de distância e, me espanta o fato de conseguir ultrapassar essa distância inimaginável e conseguir atingir meus olhos e causar encantamento. Como a distância é inútil quando algo quer tocar dois mundos.

Pensando nisso lembrei-me do trecho da canção: "O céu de Ícaro tem mais poesia que o de Galileu". Retrata essa questão de perto e longe. Ícaro em uma situação de caos, preso no labirinto, utilizou um par de asas feitas de cera e pena de pássaros, para que voando pudesse sair daquele lugar. Seu pai havia aconselhado que ele não voasse muito alto, perto do sol, pois isso acabaria ocasionando o derretimento da cera e iria propiciar a queda. E nem muito baixo, perto do mar, pois a água iria molhar as penas. Mas ao voar, Ícaro se esqueceu das recomendações de seu pai, se encantou com o sol e voou em direção a ele, ocasionando o derretimento da cera e propiciando sua queda no mar.

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Essa história remete muito a questão das paixões e como ela dita comportamentos insanos. Como muitas vezes somos alertados dos riscos e dos limites, mas sob efeito do encantamento, acabamos ultrapassando a linha de segurança e ficando vulneráveis a todos os riscos.

Ícaro se apaixonou pelo sol, então voar até ele foi inevitável. As asas derreteram e ele caiu. Mas o encanto de tudo isso é que ele alcançou seu objetivo, chegou perto do seu objeto de paixão mesmo que por pouco tempo e isso lhe custou sua segurança e o sucesso de sua fuga. O céu de Ícaro se torna mais poético por isso, pois foi impulsionado pela paixão, pelo deslumbramento. Não houve razão, apenas emoção em seu gesto.

“O céu de Ícaro tem mais poesia que o de Galileu/E lendo teus bilhetes, eu penso no que eu fiz/Querendo ver o mais distante sem saber voar/Desprezando as asas que você me deu”

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Ao contrario de Galileu que também teve seu contato com o “céu”, mas de forma totalmente racional, fez inúmeras descobertas importantíssimas, mas manteve o distanciamento. Foi um olhar que observou o infinito, porém com os pés firmes ao chão. Seguindo todas as normas de seguranças. Obteve sucesso, prova disso é o legado de descobertas deixado.

Ambos experimentaram o encantamento, cada um a sua maneira. Um optou por se jogar sem mensurar os riscos, outro estudou sem se aproximar. Igual acontece nas paixões, enquanto uns fazem como Ícaro: Se entregam sem mensurar os riscos ou danos. Outros fazem como Galileu: Estudam sem se aproximar.

“Tendo a lua aquela gravidade aonde o homem flutua/Merecia a visita não de militares/Mas de bailarinos/E de você e eu.”


Michelle Oliveratto

Mineira, estudante de música e observadora incansável do mundo. Para mim escrever é preciso, navegar nem tanto. Sigo tentando acalmar toda folha em branco que se aflige com esse silêncio pautado.
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