infinito particular...

Bem vindo ao que eu sou.

Michelle Oliveratto

Mineira, estudante de música e observadora incansável do mundo. Para mim escrever é preciso, navegar nem tanto. Sigo tentando acalmar toda folha em branco que se aflige com esse silêncio pautado

"Há pessoas que nos roubam, há pessoas que nos devolvem"

Vinte e três de dezembro de 2015, ofereci um prato de comida e em troca ele me devolveu o sentido da vida.


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Estava atravessando um quadro depressivo há meses. Não conseguia dormir, embora tivesse uma cama. Não conseguia comer, embora a mesa estivesse farta. Não queria levantar, embora tivesse uma saúde física perfeita. Não reagia, mesmo tendo família e amigos que se preocupavam e clamavam por melhoras.

O motivo para alguém chegar nesse nível é o acúmulo de vários fatores, mas a minha gota d’ água foi ter sofrido uma rejeição. Para mudar esse contexto, foi preciso aparecer na minha vida um homem, que diferente de mim, não tinha cama, porém dormia todas as noites feito uma criança. Não tinha mesa farta, mas se alimentava como quem dispõe de um banquete sempre que lhe doavam alimento, ou quando vendia as latinhas que catava. Levantava todos os dias, não tinha saúde perfeita, mas era grato a Deus por mais um dia de vida. Reagia, embora não tivesse família, levava seus dias com dignidade, contando com orgulho que todo esse tempo morando na rua, nunca roubou ou prejudicou alguém.

Ele se chama Flávio e o motivo que o levou para as ruas, também acredito que são inúmeros. Mas diferente de mim que teve UMA rejeição como gota d’ água, Flávio lida com a rejeição diária de uma sociedade inteira. Que faz dele um homem invisível perante o olhar das pessoas que passam apressadas pela aquela praça que ele chama de lar.

Pela primeira vez me vi em uma situação limite na qual não estava conseguindo reagir. Tudo havia perdido a graça, as coisas que me movimentavam, havia perdido o sentido. Eu não achava justo me sentir assim, visto que eu tinha tudo para levantar todos os dias e mudar minha realidade, mas mesmo tendo essa consciência, simplesmente não conseguia. Como se os fios que conectam nossa vida com todas as nossas vontades tivessem se perdido dentro de mim. Tinha consciência do curto circuito, mas desconhecia a engenharia que religaria tudo novamente.

Quando movida por uma vontade súbita de ocupar a mente com algo produtivo, tomei conhecimento de um projeto que leva o nome de “Natal de Rua”, onde um grupo de voluntários promove um natal para os moradores de rua. O evento acontece debaixo de um viaduto muito conhecido aqui em Belo Horizonte, viaduto de Santa Tereza. Uma festa pensada nos mínimos detalhes. Realmente uma confraternização. Servimos a comida e depois de realizar a função que nos foi delegada, íamos interagir com os nossos convidados.

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Caminhando por entre as mesas, observando aquela realidade, me comovendo e pensando inúmeras coisas, sinto alguém tocar em meu braço e dizer: “Senta aqui, vamos conversar?”. Era o Flávio, não hesitei, puxei a cadeira, sentei em seu lado. Por um segundo me esqueci do quanto estava perdida e automaticamente minha mente foi bombardeada com mensagens positivas, conselhos, orientações e tudo que havia aprendido sobre Deus e que eu poderia dizer para consolar e animar aquele homem, mas estava enganada, quem fez tudo isso foi ele.

Flávio me falou sobre gratidão, fé e esperança. Disse que era muito grato, pois sua vida era maravilhosa. Falou de sonhos - o dele era ser pastor- o meu que sempre foi a música, elogiei a sua forma de cantar. Ele sorriu e brincou dizendo que eu só havia dito para agradar. Discordei dizendo que realmente achava que ele cantava bem, e melhor que uma voz bonita era o amor que ele demonstrava em cantar quando com as mãos no peito ele entoava Tim Maia: “Ah! Se o mundo inteiro me pudesse ouvir/Tenho muito pra contar/Dizer que aprendi/E na vida a gente tem que entender / Que um nasce pra sofrer enquanto o outro ri”.

Ele falou das dificuldades que passava na rua, mas que procurava ser positivo e que sempre recorria à fé. Sem saber dos meus problemas, aconselhou que eu fizesse o mesmo. Disse que nunca havia roubado e nem usado drogas ou algo do tipo e que se considerava um homem muito abençoado por isso.

Chorou quando falou da sua vontade de voltar para sua cidade natal e encontrar sua família. Nos abraçamos, acalentei seu choro enquanto ele acalentava minha alma. Falou que as pessoas escondem a bolsa e olham feio para ele, mas que ele entende. Que jamais culpa a Deus ou qualquer outra pessoa por ele está nessa situação, diz que a culpa é dele. Que hoje está caído, mas irá se reerguer.

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Conversamos por mais de duas horas. Mais ouvi do que falei e me senti grata por ter desfrutado daquela companhia tão rica. Por entre tantas pessoas, ter sido escolhida por ele que intuitivamente me falou sobre tantas coisas, que mesmo desconhecendo minha história, fez tanto sentido pra mim.

Meu encontro com Flávio foi místico, humano, talvez até predestinado. Para quem acredita, talvez Deus usou aquele homem para falar comigo. Acredito em todas as opções citadas. Só sei que não voltei para casa sendo a mesma pessoa. Fui com o intuito de ajudar e acabei sendo ajudada. Ofereci um prato de comida, doei meu tempo, que nos últimos meses estava sendo tão mal aproveitado e, em troca encontrei alguém que ressignificou minha forma de ver a vida. Ganhei um amigo que me fez exercer o real espírito de Natal.

Hoje olho para os moradores de rua e tento ver o “Flávio” que existe neles. Olho para a vida e tento olhar com os olhos de “Flávio”. Meus problemas continuam os mesmos, minha forma de olhar para eles que mudou. Às vezes a angústia me encontra, mas não fico muito tempo fazendo sala pra ela. Tenho procurado ser grata por tudo, otimista mesmo quando as coisas não saem como espero.

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Tudo isso me faz lembrar os versos cantados por Lenine: “A vida continua surpreendentemente bela mesmo quando nada nos sorri”. Porque o Flávio poderia ter desistido há muito tempo, mas “escolheu” acreditar e seguir. Nessa mística que me nutro para encarar o copo e ver que ele está “meio cheio” ao invés de “meio vazio”.

Acredito que toda dor deve ser sentida, respeitada e vivida. Faz parte do luto e da luta humana de viver, mas nada pode fazer com que a gente desista de nós mesmos. Existem momentos na vida que só a gente pode nos salvar, seja por meio de ajuda profissional, família, amigos ou religião. Olhe para o espelho, se ame e respeite. Olhe para sua volta também com respeito e gratidão. O colega de trabalho, o amigo ou o desconhecido que senta ao seu lado no ônibus ou o pedinte que lhe estende a mão, pode ter uma “luzinha” que lhe ajude na direção.

A vida não é fácil, ninguém nos disse que iria ser e todo mundo sabe o quanto que é difícil.


Michelle Oliveratto

Mineira, estudante de música e observadora incansável do mundo. Para mim escrever é preciso, navegar nem tanto. Sigo tentando acalmar toda folha em branco que se aflige com esse silêncio pautado.
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