infinito particular...

Bem vindo ao que eu sou.

Michelle Oliveratto

Mineira, estudante de música e observadora incansável do mundo. Para mim escrever é preciso, navegar nem tanto. Sigo tentando acalmar toda folha em branco que se aflige com esse silêncio pautado

O primeiro encontro com Carlos Drummond de Andrade

Eu era uma criança quando Drummond me pegou pela mão, me apresentou a José e assim me ensinou a ser forte.


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Meu primeiro encontro com Carlos Drummond de Andrade foi através do seu clássico “José”. Em uma aula de português esse poema nos foi apresentado. Uma chuva de perguntas e questões em forma de verso. Lembro-me da ansiedade para que no fim daquela folha estivesse a resposta para todas aquelas questões. A resposta não veio. Depois disso, muitas respostas ficaram por vir. E eu fiquei esperando, sentada sozinha no banco da vida feito a estátua de Drummond em Copacabana. Às vezes aparece alguém e me faz companhia, mas nunca fica por muito tempo. Volta e meia vem um e furta meus óculos, só pela travessura de me deixar com a visão turva, tateando o desconhecido.

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Lembro-me também de pensar: Que homem forte é esse José. Desde então, diante de algum dilema, injustiça, conflito, solto a indagação: “E agora, José?”. O silêncio que paira é a vida me mostrando que tenho que ser forte, que na falta de cavalo para fugir a galope, devemos marchar, mesmo sem saber para onde.

Desde cedo Drummond me mostrou que a vida é cheia de perguntas e isso não é garantia de nenhuma resposta. Que “José” é a figura mais humana que a literatura já me apresentou. Um homem sem festa, sem luz e sozinho. Que em uma noite fria, esperam dele alguma resposta, mas ele é sem nome. Vai da ironia de zombar dos outros, até a delicadeza de fazer versos, amar e protestar.

Que embora esteja sem mulher, discurso e carinho, não pode afogar essas ausências na bebida e cigarro. A noite é fria e o dia que sempre traz ares de novos tempos, ele não dispõe da esperança que o aqueça. O mesmo ocorre com o bonde, riso, utopia. Tudo acabou, fugiu, mofou. Talvez seu destino seja a morte. Eis que surge o verso mais surpreendente e inesperado: “Mas você não morre, você é duro José”. A morte seria algo totalmente compreensível e talvez até esperado. Afinal, quem suportaria tantas privações? Não foi escolha de José acabar com a festa. O povo que sumiu, apagou a luz e a solidão realmente deixa tudo mais frio. José tem um nome, porém um nome que carrega o anonimato. Um homem letrado e conhecedor do mundo, que faz verso e protesta, mas mesmo assim se vê encurralado e sem saída, lhe restando a única opção de ser forte.

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José acaba sendo o retrato de todos os brasileiros que carregam um grito preso na garganta. Que caminha sozinho mesmo estando em uma multidão. Que é apenas mais um número nas estatísticas. Que de tanto sofrer só lhe resta a opção de ser forte e enfrenta uma guerra de peito aberto.

Admiro a força do José de Drummond. Quando a vida passa doendo, me imagino deitada em seu colo e dizendo: “E agora, José? Me ensina a ser forte?” Ele nunca diz nada, mas seu silêncio, misteriosamente me consola.Tem força maior do que achar resposta no que nada diz? Obrigada José. Obrigada Drummond. Obrigada a professora que naquela manhã me apresentou esses dois.


Michelle Oliveratto

Mineira, estudante de música e observadora incansável do mundo. Para mim escrever é preciso, navegar nem tanto. Sigo tentando acalmar toda folha em branco que se aflige com esse silêncio pautado.
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