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Michelle Oliveratto

Mineira, estudante de música e observadora incansável do mundo. Para mim escrever é preciso, navegar nem tanto. Sigo tentando acalmar toda folha em branco que se aflige com esse silêncio pautado

Quarto em Arles: O descanso da solidão de Van Gogh

Van Gogh ao retratar o "Quadro em Arles" retratou também sobre a solidão e a espera. Sobre as cadeiras vazias que aguardam a chegada de alguém que nunca virá.


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Vincent Van Gogh era um homem triste, solitário, angustiado e essas característica transbordavam nos pincéis. Suas cores que em vida não alcançaram os pedestais, levou uma vida que não era condizente com seu talento. Tinha o apoio financeiro do seu irmão Théo e vendeu apenas um quadro. Levava uma vida simples e personalidade forte, seus amores não ficavam por muito tempo, e tinha uma relação bastante conturbada com o amigo e pintor Paul Gauguin.

Acolher suas obras era como acolher um pouco seus conflitos. Como se as retinas pudessem consolar tanta angustia e fazer companhia para esse artista solitário. Mas entre tantas obras geniais, o “Quarto em Arles” é que não me canso de olhar.

Essa obra tem três versões e foram pintadas nos últimos anos de sua vida. Retrata o quarto que morou na pensão de Arles, na França.

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Podemos observar cores que transmitem uma tranquilidade que todo quarto necessita, mas simbolismos que causam certo desconforto. Um quarto vazio, com duas cadeiras e dois jarros de água. Descansam sobre a cama dois travesseiros e uma colcha vermelha que aquece só de olhar. No lado da cama, os quadros são inclinados como se zelasse o sono de quem fosse deitar.

O chão passa uma sensação de instabilidade, visto que também é inclinado. Passando a ideia que os objetos presentes, assim como seus amores e amigos, não ficariam por muito tempo. As janelas entreabertas permitem à entrada da brisa, afinal, a solidão também precisa respirar. As portas que mal aparecem, impedem uma possível fuga.

Tudo guarda em si uma espera de alguém que provavelmente nunca virá. Pode ser a espera do amor que não lhe fez companhia, que não lhe afagou os cabelos, que não acalmou a loucura e não sussurrou promessas no ouvido invés de lhe arrancar a orelha.

Pode ser a espera do irmão que era sua única fonte de afeto e ajuda financeira. Quem trocou cartas, confidencias e anseios.

Pode ser a espera do amigo que mais brigava, mas também amava. Afinal, quem parte deixando um pouco de amor, quem fica sempre aguarda a sua volta.

Nunca saberemos qual figura que descasaria naquela cama e ocuparia a segunda cadeira, aquela posicionada mais perto da cama, para zelar o sono em noites estreladas. Talvez cada uma das versões seja para representar uma espera diferente. Esse mistério ficará.

O quarto representa o cômodo mais intimo da casa. No final de um dia cansativo, o destino mais urgente é o quarto, onde tiramos os sapatos e descansamos da vida. No quadro de Van Gogh é o lugar das esperas, descanso da solidão e da loucura coberta com o mistério de quem será que ele aguarda.


Michelle Oliveratto

Mineira, estudante de música e observadora incansável do mundo. Para mim escrever é preciso, navegar nem tanto. Sigo tentando acalmar toda folha em branco que se aflige com esse silêncio pautado.
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